MILLÔR FERNANDES (1924-)

Eu não creio na existência de Millôr Fernandes. Este sujeito sempre me pareceu mais um personagem do que alguém de carne e osso. Algumas redações de revistas me afirmaram que ele existe mesmo, mas quem pode confiar hoje em dia em jornalistas? Prefiro crer que Millôr é na verdade um comitê de vários artistas, escritores, frasistas, eruditos que bolam o que ele escreve e desenha, depois assinam com o pseudônimo. Bem, sendo ou não sendo real, vamos ler o que escreve o Sr. Fernandes. Antes, uma informação preliminar: esse artigo foi publicado na infelizmente defunta revista BUNDAS e trata da diferença entre o português falado aqui e o de Portugal.

Ah, português não é lingua estrangeira? Então tá.

"Estava a conduzir meu automóvel numa azinhaga com um borracho muito gira ao lado, quando dei com uma bossa na estrada de circunvalação que um bera teve a lata de deixar. Escapei de me espalhar à justa. Em havendo um bufete à frente convidei a chavala a um copo. Botei o chiante na berma e ordenamos ao criado de mesa, uma sande de fiambre em carcaça eu, e ela um miau. O panasqueiro, com jeito de marialva paneleiro, um chalado da pinha, embora nos tratando nas palminhas, trouxe-nos a sande com a carcaça esturrada (e sem caganitas!), e, faltando-lhe o miau, deu-nos um prego duro”.

Não entenderam. Preferem javanês? Então eu traduzo para a língua que se fala no Brasil:

"Eu dirigia meu carro por um caminho de pedras tendo ao lado uma gata espetacular, quando vi um lombo na estrada de contorno que um escroto teve o descaramento de fazer. Por pouco não bati nele. Como havia em frente uma lanchonete, convidei a gata a tomar um drinque. Coloquei o carro no acostamento e pedimos ao garçom sanduíche de presunto com pão de forma, eu, e ela sanduíche de lombinho. O gozador, com jeito de don Juan bicha, muito louco, embora nos tratando muito bem, trouxe o sanduíche com o pão queimado (e sem azeitonas!) e não tendo sanduíche de lombinho, trouxe um de churrasquinho duro”.