STREET GOURMET, TAVERN GOURMET

A vida não é só champanhe, caviar, ostras à Rockefeller, linguado à belle meunière, timballi di maccheroni, boeuf bourguignonne, coq au vin, rock crabs, magret de canard. Há que se aventurar, partir em busca de novos paladares - ousar, enfim. Penetrar no Coração das Trevas da gastronomia, tal qual Indiana Jones famélico. Ser um Street Gourmet. Um Tavern Gourmet.

Minha vastíssima experiência nesse assunto me permite tecer alguns comentários sobre as iguarias que podem ser encontradas no mundo da comida de rua e de boteco.

TORRESMO. A pele de porco frita é um dos maiores prazeres que o dinheiro pode comprar. Porém, há que ser criterioso na escolha da epiderme suína: deve ter uma grossa camada de gordura por baixo, pouca ou nenhuma carne e precisa ter o tamanho aproximado de uma gaita de boca pequena. É necessário também limão e uma cerveja bem gelada. Come-se lambendo os beiços e sentindo as artérias a se contrair. Fizeram uma pesquisa e descobriram quantas calorias tem um torresmo: todas.

OVO COLORIDO. É o preferido de office-boys, acompanhado de groselha. Se alguém está comendo um ovo destes numa ponta do balcão, mesmo quem está na ponta oposta sente o cheiro. É uma iguaria que pode ser apreciada também pelo seu valor arqueológico, já que costuma ficar na "vitrine" por semanas. Você pensa que o pessoal usa anilina para colorir o ovo? Que nada! Usam casca de cebola para o ovo sair amarelão e casca de beterraba para sair vermelhão. Totalmente Low-Tech.

CROQUETE. Existem três mistérios insondáveis: o espaço exterior, a metafísica e a composição do croquete. Basta dar uma mordida em um deles e espiar a massa cinzenta e ameaçadora da qual eles são feitos. O que será aquilo? Tripas de boi moídas "au naturel"? Carne de ratazana? Papelão temperado? Os croquetes de rodoviária são lendários - caem como Napalm na flora intestinal. Se você vai embarcar e quer comer um desses, primeiro certifique-se que o ônibus possui banheiro. Sério. (*)

LINGÜIÇA. Tem uma frase que acho genial: "quem gosta de política e lingüiça não deve saber como são feitas". As lingüiças de boteco são duras na queda. Podem ficar dias e dias lá na bandeja, umas em cima das outras, numa espécie de orgia imóvel. O segredo para tamanha longevidade é que são fritas até quase o ponto de esturricarem, o que é equivalente a um processo de mumificação.

DOGÃO. Um lanche francamente inspirado nos compactadores de arquivo. É impressionante como conseguem enfiar tanta tralha dentro daquele pãozinho. Senão vejamos: maionese, purê de batata, duas salsichas, milho verde, ervilha, cenoura ralada (sim, já vi disso!), vinagrete, batata palha, queijo ralado, catchup e mostarda. Mal dá para segurar o dogão. É impossível não se lambuzar ao dar a primeira mordida. Depois de comer um desses, a pessoa se sente como uma granada de mão sem o pino.

CHURRASQUINHO. Esse é talvez o maior clássico da comida de rua. Churrasqueira portátil na calçada, uma bandeja de farofa com uma mosca morta dentro, uma garrafa de cachaça ao lado com copinhos de plástico, aquela fumaceira toda e um sujeito abanando o fogo berrando "olha o boi na braaaasaaaa!" A degustação de tão requintado acepipe deve ser precedida por um talagaço da cachaça, naturalmente de qualidade duvidosa - pode ser uma chamada "oncinha", famosa nos botecos do interior. Espere cinco segundos, até começar aquela queimação horrível no estômago. Aí pegue o espetinho, passe na farofa (cuidado pra não levar a mosca junto!) e coma de pé, na direção contrária à fumaça. Claro, mesmo assim você vai acabar cheirando como um baconzito, mas como diria Kleber Bam-bam: faz parte.

(*) Me lembro que no boteco do Fausto contrataram um balconista novato. Perguntei pra ele, apontando para os croquetes na bandeja: "ei, isso tá bom?" Ele respondeu "não sei, mas na sexta tava", sendo que estávamos na segunda-feira. No dia seguinte, passei lá e não vi o novato. Perguntei dele pro Fausto e soube que o cara tinha sido despedido. "Mas por que?" E o Fausto "ele era sincero demais prum balconista."