MILES DAVIS
Há o execrável cotidiano que nos ocupa com trivialidades. Há o fazer a barba, ou maquiar-se; falar com gentes e responder a perguntas; existem contas a pagar e roupas a vestir. Essa enumeração poderia seguir indefinidamente: são muitas as formas do tédio.
Porém, há um momento em que, depois de cumprirmos nossa tarefa de operar no mundo, podemos tirar os sapatos e recostar na poltrona. Uma bebida, por favor.
Luzes indiretas. No aparelho de som, "Decoy", de Miles Davis. A faixa 6, "That's Right". Um blues lentíssimo. Já de início um trompete que parece se dissolver no ritmo lasso, como se fosse feito de metal derretido, solta notas preguiçosas e aveludadas. É noir, é no ar, é cool a não poder mais.
Uma transição. O trompete se cala e algo que parece uma guitarra - não sei o que John Scofield usou na sua Gibson -, inicialmente acompanhada pelo sax e depois mergulhando em um solo, fala coisas muito estranhas para você. Coisas esquisitas, inesperadas. Em voz baixa, tranqüilamente, como se fossem confissões.
Onze minutos. E então os sons vão se tornando ainda mais mansos. E finalmente desaparecem no silêncio.