AGORA VAI

Como meu sonho de consumo é tomar chá das cinco com Paulo Coelho e José Sarney, comecei a escrever um livro místico de auto-ajuda. É impossível que os Imortais da ABL fiquem indiferentes a esta contribuição imorredoura às Letras Nacionais. Alea Jacta Est.

O CAMELO DE TRÊS CORCOVAS por Pedro Lebre

CAPÍTULO UM

do encontro entre Ahmed e Babaganoush

Ahmed respirou o ar poeirento, onde pairava o odor inequívoco de bosta de ovelha. Podia ouvir os delicados esfíncteres pot-potiando inesgotáveis pérolas de estrume deserto afora, sob o ameno sol do fim de tarde. Sentia-se cansado. Quinze anos cuidando de animais estúpidos, dando estilingaços na bunda de lobos mais ousados, sentando o cacete nas ovelhas rebeldes, enfim, uma vida lamentével.

A lição

Ahmed conduzia seu rebanho por um lugar qualquer quando um velho veio na sua direção. O velho era um sábio, mas Ahmed, na sua ignorância, disse: “arreda, patrãozinho, que o nêgo aqui tem que levar os bichinho”. O sábio fez um sinal cabalístico, paralisando a língua profana do ignorante pastor. Em seguida, disse:

“Ignoto viajor, teus filhos não são teus filhos, pois os humildes herdarão a terra. Girls just wanna have fun. Florentina, Florentina, Florentina de Jesus. O Senhor é o meu pastor, logo sou sua ovelha. Responda-me, caríssimo bigorrilho: um pastor cria ovelhas para quê?”

E fez o sinal para soltar a língua do pobre ignoto pastor. Então este disse:

“Mestre, a felicidade existe em servir o eu interior de cada um, e não em encher o bucho. Almas que se encostam podem cruzar a avenida, mas só se o sinal estiver verde. O Profeta disse: deveis agir como ursos com bafo de flores - fortes porém delicados; másculos porém exigentes em relação às echarpes; e rigorosos na pronúncia de vol-au-vent.”

E então as tênues cores do pôr-do-sol envolveram os dois, aprendiz e Mestre, na bruma imemorável dos tempos pretéritos.