PENA DE VIDA
Quando peguei o táxi, o motorista começou a conversar comigo. O problema é que era de manhã cedo, eu estava a caminho do aeroporto para ir até Brasília e enfrentar uma reunião vital para a minha carreira. Não tinha conseguido dormir direito e estava irritado e ansioso. E o sujeito - OK, ele não tinha nada a ver com os meus problemas - continuava a fazer comentários e perguntas.
Fui monossilábico a maior parte do percurso. Num determinado ponto, o cinesíforo disse:
- Eu acho que esses bandidos que seqüestram e matam, todos deveriam ir para o paredão, viu? Pena de morte para eles!
Aí eu me descontrolei. Resolvi acabar com aquela palhaçada.
- Não, nada disso. O negócio é pena de vida.
- Pena de vida?
- Sim. É só pegar um pedaço de borracha de pneu, colocar na nuca do indivíduo e dar um tirinho de calibre 22, na quarta vértebra. O cara fica tetraplégico, sem poder se mexer. Aí a gente joga ele em uma cela escura, sem luz nenhuma, e deixa ele boiando no próprio cocô.
- Hein?!?
- Mas o cara NÃO pode morrer: é necessário entupir ele com antibióticos e dar todo o tratamento médico para que ele viva pelo menos noventa anos apodrecendo no escuro, como um pedaço de queijo asqueroso. E ele o tempo todo implorando para que matem ele.
- O senhor fala sério?
- Claro, sai muito mais caro que matar o sujeito, mas eu acredito que em alguns casos vale a pena. Sim, eu falo sério.
Não ouvi mais nenhuma palavra e o chofer me cobrou a menos a corrida.