SOBRE AS LETRAS

Dizem-me, as pessoas com as quais convivo, que estamos nesta existência por uma única razão: movimento. È vero, a Vida, tal qual nós a conhecemos, é prenhe de movimento. Pessoas saem do ponto A e vão ao ponto B, e pessoas saem do ponto B a vão ao ponto A, e não conseguimos imaginar o que há de tão interessante no ponto A que faça as pessoas saírem do ponto B. Pois se no ponto A existe algo de tão interessante, as pessoas que já estão no ponto A nunca sairiam dele. (partes do parágrafo plagiadas descaradamente de Douglas Adams)

Movimento, não só o físico. Grande parte da nossa vida consiste em movimento da Mente. Deus nos concedeu uma enorme máquina de fliperama que está localizada entre nossas orelhas. O cérebro, uma das muitas maravilhas criadas pelo Onissapiente (entre elas a graviola e a Jennifer Lopez), é uma espécie de pokemón ensandecido, gerando sempre bilhares de pensamentos por segundo.

Portanto, é curioso que as pessoas optem por cousas que, ao invés de estimularem o Movimento Cerebral, embotam-no. Posto que o cérebro é um Hamster Anfetaminado, nada mais natural que espicaçá-lo, fustigando-o impiedosamente com mais e mais Informação, para que corra até à Exaustão no seu Cilindro Rotativo.

Uma das cousas que embotam sobremaneira nosso Pequeno Roedor Cerebral são as Leituras Perniciosas. Por Perniciosas, apresso-me a esclarecer, pretendo designar as Letras Mortas, que só se prestam a desperdiçar nosso Tempo e anestesiar nossas Mentes. Porém, há os que preconizam a leitura a qualquer preço, repetindo o nefasto adágio "Pelo menos estão lendo alguma coisa!"

Não, necessitamos ter tanto critério com as Leituras quanto com o que comemos, por exemplo. Qualquer Político, vendo uma Criança de Rua comer um Rato Podre, jamais poderia dizer "Pelo menos estão comendo alguma coisa!" defronte às Câmeras de TV. Entretanto, em uma visita às Suntuosas Instalações de uma Escola Pública, o mesmo Político sentiría-se à vontade para exclamar semelhante blasfêmia perante o Rebanho de Estudantes lendo - quando lendo - aquelas patetices recomendadas pela professora de português.

Concordo que há de prevalecer o bom-senso. Não se pode dar de comer um mocotó a um convalescente. Não se dá feijoada para uma criança de colo. Mas, amigos, o tempo passa e os convalescentes se recuperam, e as crianças crescem. O problema é que, no âmbito das idéias, muita gente permanece eternamente enferma e infantil.

E então florescem estas excrescências literárias que vemos expostas nas livrarias. Não pude, esses dias, deixar de esconder meu espanto - para não dizer horror - ao conversar com amigos que elogiavam o Código Da Vinci. Ei, estou falando de pessoas instruídas, que deveriam, ao menos, ter o Espírito Crítico já formado. Mas não. Estou aprendendo, da maneira mais dolorosa possível, que informação+tempo não necessariamente quer dizer malemolência. Sad, but true.

Já li Dan Brown. E já li Paulo Coelho. Mas o fiz por uma questão de Curiosidade Científica, para tentar descobrir SE esses caras realmente entendiam do riscado.

Toda esta pesquisa me forçou a fazer a clássica cara de "whaddafuck??"

Minhas crianças, se vocês se dispuserem a ganhar tempo lendo um livro, não fiquem nos dan browns da vida. Sei que o Caminho Mundano é cheio de Desvios Maliciosos, portanto, vos ofereço uma Nem-Tão-Modesta relação de livros essenciais à sua Correta e Perfeita Formação Intelectual.

- As Viagens de Gulliver, Swift
- Decameron, Bocaccio
- Satyricon, Petronio
- Memórias de Adriano, Margueritte Yourcenar
- Poderes Terrenos, Anthony Burgess
- O Coronel e o Lobisomem, José Cândido de Carvalho
- Macunaíma, Mário de Andrade
- O Livro de Areia, Jorge Luis Borges
- Bestiário, Julio Cortázar
- Pequenos Poemas em Prosa, Baudelaire
- Uma Temporada no Inferno, Rimbaud