DOS USOS RECREATIVOS DA NOZ-MOSCADA

O Mundo inteiro deve muito à Itália, gastronomicamente falando. A Civilização, tal qual nós a conhecemos, não seria a mesma sem a Lasanha, o Carpaccio, a Pizza, a Fogazza e outras gostosuras que tornam esta Jornada Terrestre um pouco menos Penosa. É impossível encarar com pessimismo a Vida depois de um Gnocchi aos 4 queijos escoltado por um bom Barolo. Não falo da "Alta Culinária Italiana", que se encarregou de afrescalhar e encarecer coisas tão prosaicas como uma Polenta ao Funghi. Falo da comida caseira, aquela que se pode encontrar, por exemplo, numa modesta Cantina, ou preparada por aquela tia que tem o Dom da Coisa.

Tortelli são delicados pasteizinhos de abóbora cozidos no brodo e cobertos com um molho sutil, que não sufoque o seu sabor. Tomates com frango desfiado e cebola, por exemplo. Graças aos Céus, esta é a especialidade da Noviça Beth, que como toda Mulher de Caráter, adora pilotar um fogão e não se envergonha disto.

Estes dias ela preparou uma travessa Pantagruélica de Tortelli por ocasião do Aniversário do Duce. Nos cálices, um Tinto Honesto enviado diretamente das adegas do Padre Giovanni, de Nápoles. Coloquei um CD do Pepino di Capri para dar aquele clima e comemos, longa e fartamente, discorrendo sobre o Mito da Cocanha e os Pintores Renascentistas.

Esqueci de dizer que na massa que recheia os Tortelli não pode faltar um ingrediente, sem o qual o acepipe fica totalmente desvirtuado: a Noz-Moscada. Todo mundo sabe, ou deveria saber, que a Noz-Moscada, além de dar um toque exótico às comidas e às bebidas (especialmente o Bloody Mary), possui um leve efeito alucinógeno, dependendo da quantidade. Como sempre gostei de comidas bem condimentadas, pedi para a Beth carregar bem na Noz.

Depois de nos fartarmos à larga, bateu aquele agradável sentimento de que, afinal de contas, a vida não é tão Trágica assim. O jantar foi arrematado com um expresso e um Amaretto, seguido de um filme do Ettore Scola. Após isso, fui conduzido ao Santo Leito pelas Noviças, que insistiram em Atividades Recreativas Ecumênicas até às 2 da Matina. Então, já um pouco desgastado pelo Dispêndio de Energia, adormeci.

A estrada era rústica e ladeada por árvores bem antigas. Caminhava por ela, através de uma luz fragmentada que cobria o chão com claros mosaicos aleatórios. Enigmaticamente, eu tinha certeza que era uma Quarta-Feira. Em uma das árvores, vi um papel dependurado num prego. Me aproximei e pude ler: "você está se divertindo?", escrito em MS Sans Serif tamanho 18. Prossegui no caminho e enxerguei, ao longe, uma espécie de quiosque precário, com banquinhos junto ao balcão, onde algumas pessoas estavam conversando animadamente. Quando cheguei perto, vi que eram o Chacrinha, o Ultra-Man e Herbert Von Karajan, bebendo o que me pareceu Fanta Uva e comendo Doritos sabor Queijo Nacho. Passei ao largo do quiosque, acenando de leve com a cabeça, e o Chacrinha deu uma buzinada, provocando amistosas gargalhadas.

Após caminhar um tempo, a estrada começou a ficar inclinada e áspera, e as árvores foram sumindo. O caminho foi se estreitando até que cheguei a uma ponte pênsil sobre um penhasco. Do outro lado da ponte, havia uma casinha debruçada no vazio, toda construída de materiais reciclados, como garrafas PET, edições antigas da revista "Contigo" e latas de ervilha.

Atravessei a ponte e bati na porta da casinha. Tinha certeza que havia alguém lá dentro, pois da pequena chaminé se erguia um fio de fumaça que se dissolvia no céu cinzento. "Já vai, caraio!", uma voz distante soou. Ouvi uns resmungos e a porta se abriu, e lá estava Swedenborg, do alto dos seus noventa e poucos anos, encarquilhado, o rosto manchado pela idade. "Ah, é você, Levedo! Entra aí".

A casinha tinha um cômodo só e pouquíssimos móveis. Um aroma um tanto pesado de cravo impregnava tudo. Swedenborg me apontou a mesinha e nos sentamos para um chá. "Então, Mané, quer dizer que aqui do outro lado a coisa é assim, bem do jeito que você falou?", perguntei. Ele me olhou com um misto de fastio e pena: "É, eu sempre estive certo. Neguinho só não me internou porque eu tinha amigos importantes, mas é exatamente como eu disse. Cada um faz o que quer, por aqui. Como do outro lado, as pessoas acabam encontrando a sua turma e ficam juntos por afinidade."

Um silêncio acompanhou minha meditação sobre as implicações daquele fato. Emanuel bebeu ruidosamente seu Earl Gray e mordiscou um biscoito, olhando pensativo pela janela. Tomei coragem: "Tá, entendi, mas me conta uma coisa: cadê o pessoal de Brasília?"

Ele deu um leve sorriso e disse: "Olha, eu saio pouco de casa. A última vez que os vi, estavam tentando convencer um bando de vacas a entrarem numa sociedade para abrir um curtume".