RAGOUT

Durante o Cerco de Paris, em 1870, quando a população da Capital Francesa esgotara os depósitos de víveres, os cães, os gatos, os pássaros que estavam nas gaiolas e outros bichos de estimação foram inexoravelmente para a panela.

Nesta ocasião, tornou-se famoso um cozinheiro que preparava os ratos com um tempero especial, que lhes dava um gosto de carneiro. O Espírito Parisiense batizou imediatamente este prato com o pomposo nome de "rat-goût-de-mouton", ou seja, "rato-com-gosto-de-carneiro".

Aquela carne picada ficou célebre e, cessada a guerra, passou a fazer parte dos cardápios internacionais, mas com uma pequena modificação ortográfica e uma mudança radical da matéria prima. Assim, o "rat-goût de mouton" passou a chamar-se simplesmente "ragoût", que poderia ser, conforme as circunstâncias, de carneiro, de vitela ou de qualquer outro animal comestível.

O "ragoût-de-mouton", no Brasil, manteve a receita original. Esses dias, passando por uma rua paralela a um viaduto, pude ver um sujeito sorridente segurando dois grandes ratos mortos pelo rabo. Parei num boteco em frente e fiquei observando o que o cidadão iria fazer com aquilo. Ele foi para baixo do viaduto, pegou os bichos, cortou as cabeças, as patas e os rabos, tirou a pele e as vísceras, salgou, puxou umas batatas podres de uma latinha e fez seu picadinho com água da sarjeta.

Contive meu impulso de ir até lá e parabenizá-lo por manter essa Secular Tradição da Culinária Francesa.

Mas - parafraseando Regina Duarte - eu tenho medo. Agora que, devido a um lamentável cochilo de Deus - tentei acordá-lo mas minhas ligações sempre caíam na secretária eletrônica -, os Malditos Comunistas chegaram ao Poder, é possível que acabem com essas Belas e Espontâneas Manifestações Multiculturais do Nosso Povo, cevando-os com arroz, feijão e carne de boi, comida sem nenhum charme nem pedigree como o ragout. Holy shit!