HISTÓRIAS DE CANIBAIS
Se você fosse um autóctone da Nova Zelândia, da tribo dos Maoris, seus valores morais seriam - a princípio - substancialmente diferentes. Para esses botocudos, que viveram isolados do resto do mundo até os ingleses botarem ordem naquela zona, nada dava mais status na tribo do que matar o melhor amigo e devorá-lo num grande banquete. Talvez por causa disso era um povinho que relutava muito em fazer novas amizades. Quando os anglo-saxões perguntaram - movidos talvez por aquela peculiar curiosidade mórbida dos Súditos do Império Onde o Sol Nunca se Põe - qual o gosto da carne humana aos índios, ficaram sabendo que era muito semelhante à carne de porco. Tanto que, na língua deles, "homem" era chamado de "porco comprido".
Aqui mesmo em Pindorama existiram canibais. Quando os Portugas e demais Europeus de arrasto apareceram, estabeleceu-se uma certa relação amistosa com a indiada, que degringolou assim que os nativos perceberam que aquela gente branca queria mesmo era foder (no mau sentido) com eles.
Os Tupinambás, quando apanhavam algum infeliz que julgavam inimigo, faziam uma grande festa para comê-lo, festa essa onde compareciam mulheres e crianças da tribo, em alegre expectativa. No meio da aldeia, dois índios, cada um com um cipó, laçavam o sujeito pela cintura e o imobilizavam, de pé. Aí vinha um outro índio, forte pra cacete, portando uma borduna, que é uma espécie de porretão, e abria a cabeça do coitado. Depois todos ajudavam a preparar os miúdos e a carne para o banquete.
Muita gente teve esse triste destino. Em 1556 o Bispo Sardinha foi supostamente comido por índios no litoral do Brasil. Esta história tem algumas versões: (a)foram os Caetés que comeram o Bispo em Alagoas; (b)os Tupinambás é que fizeram McBishop Feliz em Sergipe; (c)ele não foi comido, mas assassinado por jagunços do Governador-Geral porque era muito metido em assuntos de política*. Em estando correta uma das duas hipóteses antropofágicas, bem que esse trecho de "Viva o Povo Brasileiro", do João Ubaldo Ribeiro, poderia servir como cardápio do certame:
"...então pegou um porrete..., arrodeou por trás e achatou a cabeça do padre com precisão, logo cortando um pouco de carne de primeira pra churrasquear na brasa. O resto ele charqueou bem charqueado em belas mantas rosadas, que estendeu num varal para pegar sol. Dos miúdos prepararam ensopado, moqueca de miolo bem temperada na pimenta, buchada com abóbora, espetinho de coração com aipim, farofinha de tutano, passarinha no dendê, mocotó rico com todas as partes fortes do peritônio e sanguinho talhado, costela assada, culhõezinhos na brasa, rinzinho amolecido no leite de coco mais mamão, iscas de fígado no toucinho do lombo, faceira e orelhas bem salgadinhas, meninico bem dormidinho para pegar sabor, e um pouco de lingüiça, aproveitando as tripas lavadas no limão, de acordo com as receitas que aquele mesmo padre havia ensinado às mulheres da redução, a fim de que preparassem algumas para ele."
Monteiro Lobato também dá umas dicas de como era aproveitada a carne:
"Já as índias nunca se queixavam de encruamento estomacal. Cabiam-lhes as partes internas, mais tenras e de mais fácil digestão, fosse qual fosse a nacionalidade da rês**. Tinham o hábito de ferver a barrigada em grandes vasilhas até que tudo se desfizesse em caldo grosso e muito apreciado, ao qual davam o nome de mingau. Esta "puré" destinava-se às crianças e convalescentes, nunca fazendo mal a ninguém, em que pese a suspeitíssima propaganda de Staden. No preparo deste mingau há um detalhe que não pode ser contado aqui. O batoque. O batoque preventivo... O batoque que impedia que algo se perdesse... A culinária francesa, ao inventar a bécassine assada com as tripas cheias ao natural, não inventou coisa nenhuma."
(*) No trotar da História, os Caetés e os Tupinambás foram todos eliminados. Já os jagunços ligados ao poder proliferaram extraordinariamente. Seleção Natural é isso aí!
(**) Lobato está falando de carne humana, viu?