NOSTROMO

Câmbio descontrolado, bravatas nacionalistas, uma incômoda sensação de que estamos no coração das trevas, e o que você faz? Corre para a estante de economia? Talvez fosse melhor correr para a estante de clássicos e (re)ler Nostromo, de Joseph Conrad (1857-1924). 0 romance diz muito mais sobre a América Latina do que as obras incompletas de FHC. A trama se passa em Costaguana, país fictício da costa oeste da América do Sul. O empresário inglês Charles Gould herda a concessão de uma mina de prata na província de Sulaco. Gould não é exatamente um humanista, mas para explorar a prata é necessário construir estradas, reformar o porto e isso acaba por gerar empregos e transformar Sulaco na província mais rica de Costaguana - o que desperta a ira (e a cobiça) de políticos nacionalistas que resolvem "estatizar" a mina. Gould, para proteger o investimento, incentiva uma revolução separatista. A confusão está armada. No meio da bagunça está Nostromo, ex-marinheiro que se torna líder dos estivadores e acaba ficando com a guarda do carregamento de prata que deveria financiar a revolta. Um dos personagens, Martin Decoud, jornalista de Sulaco, resume a situação: "Qualquer governo, em qualquer parte, é coisa refinadamente cômica; entretanto, nós ultrapassamos os limites. Nenhum homem de inteligência comum consegue tomar parte nas intrigas de une farce macabre". Parece com alguma coisa que você já viu?