CURRICULUM VITAE

Figura dinâmica, sou visto com freqüência escalando muros e esmagando gelo. Já houve casos em que remodelei estações ferroviárias na minha hora do almoço, aumentando sua eficiência no aspecto relativo à retenção de calor. Traduzo insultos de teor étnico para refugiados cubanos. Componho óperas ganhadoras de prêmios. De vez em quando, passo três dias a fio dentro d'água, mexendo os pés para permanecer boiando ereto.
Seduzo mulheres com meu jeito sensual e quase divino de tocar o trombone. Consigo subir vários morros seguidos de bicicleta sem perder velocidade ou fôlego, e sei assar brownies de 30 minutos em 20. Sou especialista em estuque, veterano no amor e fora-da-lei no Peru. Certa vez, com a ajuda de apenas uma enxada e um copo d'água grande, defendi sozinho uma pequena aldeia da bacia amazônica contra a invasão de uma horda de ferozes formigas assassinas.
Toco bluegrass no violoncelo. Sou tema de diversos documentários. Quando estou entediado, me divirto construindo pontes suspensas no meu quintal. Os críticos do mundo todo deliram com minha linha original de moda para a noite feita de veludo cotelê. Não transpiro.
Sou cidadão particular, mas recebo e-mails de fãs. No verão passado fiz uma turnê pela Tunísia com uma demonstração viajante de força centrífuga. Meus arranjos florais cheios de graça já me conferiram fama nos círculos botânicos internacionais. As crianças confiam em mim. Consigo atirar uma raquete de tênis contra pequenos objetos voadores com precisão letal. Certa vez li Paradise Lost, Moby Dick e David Copperfield em um só dia, e à noite ainda me sobrou tempo para redecorar uma sala de jantar inteira. Já desempenhei várias operações sigilosas para a CIA. Durmo uma vez por semana; quando durmo, o faço numa cadeira.

OSTRAS E HAMLET

As leis da física não se aplicam a mim. Eu rebolo, driblo, me desvio, passo pelo lado e pago todas minhas contas em dia. Nos fins de semana, para relaxar das tensões do dia-a-dia, pratico origami full-contact. Anos atrás descobri o significado da vida, mas me esqueci de anotar. Crio ostras vencedoras de prêmios. Já ganhei touradas em San Juan, competições de mergulho de penhascos no Sri Lanka e concursos de ortografia no Kremlin. Já representei Hamlet, fiz cirurgias cardíacas e conversei com Elvis.

Você, leitor fiel desse blog, provavelmente terá um grande susto quando souber que a biografia editada acima reproduzida NÃO É a de Padre Levedo. Tá bom, tá bom, não chore! Claro que sua decepção é compreensível. Mas o texto acima mostra algo relativo ao humor na Internet. Há aquela velha história dos prisioneiros que contavam as mesmas piadas uns aos outros, até as terem catalogado numericamente. Depois, tudo que precisavam fazer era falar os números para explodirem em gargalhadas de rachar.
Com o advento da Web, esse processo parece ter se metamultiplicado digitalmente. Em lugar de atribuir números às piadas, como faziam os presos, repassamos URLs engraçadas uns para os outros.
Comprove você mesmo. Utilize qualquer um dos sistemas de busca na www para procurar uma combinação esdrúxula de palavras (em inglês mesmo): sensuous e trombone. Você vai ficar espantado com o número de pessoas que têm home pages pessoais que repetem a paródia reproduzida acima de um texto biográfico redigido por um universitário candidato a um emprego. Se tiver a paciência necessária, vai encontrar centenas delas ali fora, enfeitando as páginas dos sistemas de busca na Internet. Além de nos prover sites e home pages engraçadas, a Web aponta o dedo para aquilo que nós, o povo que vive on line, acha que o humor realmente é.