GLAUCO MATTOSO (1951-)

Quando li a orelha da edição fac-similar do "Jornal Dobrabil" (um folhetim bizarro que Glauco fez circular entre 1977 e 81), me chamou a atenção a quantidade de elogios dispensados ao autor. Se me permitem a expressão plebéia, pagação de pau mesmo. O texto tecia loas à cultura enciclopédica delirante, ao domínio safado de várias línguas - entre elas o Volapuque e o Gujarati, ao despudor diante de todas as glórias, à erudição léxica de Glauco; e concluía com "cada palavra de Glauco Mattoso é uma reverberação. Não há como ultrapassá-lo." Assinado, Millôr Fernandes.

Que coisa. O Glauco já foi achincalhado a torto e a direito, e quem assina a orelha recheada de ovações do seu livro é o Millôr. Acho que Glauco merece, e muito, tudo o que foi dito. No final das contas, o que importa é quem nos elogia; quem faz escárnio de nós que vá pra puta que o pariu. E, cá pra nós, ser elogiado desta maneira escancarada logo pelo Millôr é uma consagração.

O site oficial do Glauco é passagem obrigatória para os que se interessam pela sua obra. Aqui irei mostrar alguns trechos do "Jornal Dobrabil".

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Arte é tudo aquillo que não tem utilidade ou que, tendo utilidade, a questiona (*). Antiarte seria tudo que, embora apparentemente inutil, tem a utilidade de mostrar que a arte não tem utilidade. A esthetica, portanto, não existe, pois sempre se descobrem utilidades para aquillo que é artístico, e sempre se inventam artes para aquillo que é utilitario, e assim não se podem estabelecer leis para separar o util do agradavel e o inutil do desagradável.

(*) Questiona-se a utilidade de alguma coisa usando a coisa para outra utilidade ou a utilidade para outra coisa.
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KALEIDOSCOPIO

Relendo cartas com olho unico.
Delenda Carthago com olho punico.
Lenda escripta com olho runico.
Lente elliptica com olho conico.
Mente espirita com olho cynico.
Demente hysterica com olho clinico.
Semente hermética com olho cyclico.
Serpente heretica com olho biblico.
Sentença enclitica com olho obliquo.
Substancia lithica com olho liquido.
Sciencia critica com olho logico.
Verdecencia cryptica com olho glauco.
Experiencia optica com olho cego
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MANIFESTO OBSONETO

dedicado a Kairo & Kac
(mas a indireta vai pra outros poetas ditos sujos que nunca esquecem o modess e trocam de meia de meia em meia hora)

Isso não é poesia que se escreva,
é pornografia tipo Adão & Eva:
essa nunca passa, por mais que se atreva,
do que o Adão dá e do que a Eva leva.

Quero a poesia muito mais lasciva,
com chulé na língua, suor na saliva,
porra no pigarro, mijo na gengiva,
pinto em ponto morto, xota em carne viva:

Ranho, chico, cera, era o que faltava!
Sebo é na lambida, rabo não se lava!
Viva a sunga suja, fora a meia nova!

Pelo pelo na boca, jiló com uva!
Merda na piroca cai como uma luva!
Cago de pau duro! Nojo? Uma ova!

EMENDA: um versificador mais atento certamente notará que não vou muito atrás do assento, digo, do acento, mas enfrento um metrinho rijo, digo, rígido, e fico em cima da rima...
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da série fábulas rasas

O CU E O CALÇADO

Corre nos guetos uma lenda segundo a qual todo bofe que tem pés grandes é muito bem dotado. Quando a bichinha debutante ficou sabendo, saiu pela rua feito um cachorrinho. Logo que viu um rapaz calçando tênis tamanho 44, tratou de segui-lo, calculando o comprimento do tênis. A oportunidade de conferir surgiu quando o rapaz entrou num mictório. A bichinha grudou-lhe no calcanhar e ficou de olho, mas - oh, decepção! - era só do tamanho do dedinho do pé. Não se aguentou, virou-se para o bofe e protestou: - Você não tem vergonha de ficar usando sapatos emprestados?

MORALIDADE: Mais vale uma sola na mão que dois palmos em vão.
MORALIDADE ASSOCIADA: Pé de galinha não mata pinto.