LABOR IMPROBUS OMNIA VINCIT (*)

Recebi a visita do meu grande amigo Frei Damião (**), que bateu à minha porta às seis da manhã. Eu, que meditava sobre a transitoriedade da existência, me surpreendi em vê-lo tão cedo, já que é um notório beberrão, jogador e notívago.

- Damião! Já está de pé?
- Já não, ainda. Estou voltando do cassino.

Convidei-o a entrar. Por questões de cortesia, abri um merlot fraquinho - lembrem-se, era de manhã cedo - e servi dois grandes copos. Ele esvaziou metade do seu com dois goles.

- Hummm, era isso que eu precisava.
- Ganhou alguma coisa no blackjack?
- Depois de pagar as bebidas, saí empatado. O que já é lucro, pois não?

Conversamos um pouco mais. Principiamos a discorrer sobre as vantagens e desvantagens de uma vida pia, austera e casta. Obviamente, a parte das vantagens logo foi esquecida, pois não tínhamos nada a dizer. Passamos para as desvantagens. Damião citava Blake: "O Caminho do Excesso conduz ao Palácio da Sabedoria". Eu não deixava por menos e invocava Millôr Fernandes: "A abstinência é a mais estranha forma de perversão sexual".

Estávamos nesse pingue-pongue filosófico quando Damião iniciou uma espécie de monólogo exegético sobre simplex intelligentia, scientia visionis e scientia media, divisões da onipresciência divina. Sua voz foi ficando cada vez mais distante, enquanto eu me lembrava de um episódio ocorrido na remota época em que eu era um ímpio e um pecador.

Nos tempos do curso noturno de química havia aquela colega, a Jô, que acabei conhecendo melhor e se transformou em uma grande amiga. O namorado dela aparentemente era cheio de tutu, pois tinha carrão e ia buscá-la todos os dias na porta do colégio. Numa bela noite, ela me ofereceu carona e aceitei. Pulei pro banco de trás do carro e depois de um tempo comentei com o namorado dela:

- Carrão, hein?
- Pois é, disse ele, me orgulho desse carro. Tudo o que eu tenho na vida eu consegui com esforço próprio. Nunca ganhei nada de mão beijada não. As pessoas sempre me perguntam como é que eu cheguei lá. E sempre respondo: com trabalho, muito trabalho. Eu sempre trabalhei muito.
- Falar em trabalho, disse a Jô, pegou a encomenda do Dodi?
- Sim e mais um pouco. Taí atrás. Levedo, faz favor, pega o pacote que está debaixo do banco da Jô.

Enfiei a mão debaixo do banco e puxei um pacote de dois quilos de ganja.

- CARALHO!

Os dois na frente gargalharam.

- Pessoal, eu disse, se vocês precisarem de ajuda com isso...

Fomos para o apartamento da Jô. Ela foi procurar alguma coisa na lavanderia e nós largamos o tijolo na mesa de centro da sala. O boyfriend dela serviu 3 doses de uísque e ficamos bebendo até que a Jô apareceu com uma serra e um jornal. Abriu o jornal no chão ao lado da mesa e desembrulhou o tijolo. Aí o cara calçou uma das pontas do tijolo com o joelho enquanto serrava a ponta que tinha ficado para fora da mesa. Minha função era segurar o bloco que ia se soltando e evitar que caísse no jornal, que estava aparando a "serragem". Depois de segmentar o tijolão em tijolinhos e embrulhá-los, sentamos e bebemos mais um uísque.

- Bem, falou o cara, já que acabou o trabalho, vamos à diversão.

Pegou o jornal e cuidadosamente, com uma habilidade impressionante, despejou a abundante serragem em papel-seda e confeccionou um Double-Corona Jamaicano.

Minhas reminiscências foram interrompidas por Damião, que me perguntava:

- Você concorda comigo, Levedo?
- Hein? Porra, acho que é isso mesmo. Droga, acabou o vinho.
- Vamos tomar a saideira na padaria?
- Fechado. Simbora.

Descemos a rua. O sol já brilhava forte. Parecia que ia ser um dia legal. Pelo menos tinha começado bem.

(*) soltando a tecla SAP: o trabalho persistente vence tudo. Latim é o que há!
(**) o nome é fictício