KURT VONNEGUT JR. (1922-)

Este é talvez um dos prosadores mais criativos na história das letras estadunidenses. E teve uma vida muito movimentada. Combatendo na segunda guerra mundial, teve que se refugiar do bombardeio de Dresden num matadouro. Adotou três dos filhos da irmã, que morreu de câncer 24 horas depois do marido morrer num acidente ferroviário. E por aí vai. Mas a prosa de Vonnegut é engraçadíssima. Um livro dele, "Hocus Pocus", é escrito em formato de blog (o livro é de 1990). Vejamos.

Meu nome é Eugene Debs Hartke, nasci em 1940. Recebi este nome por ordem do meu avô materno, Benjamin Wills, que era um Socialista e um Ateu, nada mais que um zelador na Universidade Butler, em Indianápolis, Indiana, em homenagem a Eugene Debs de Terre Haute, Indiana. Debs era um Socialista e um Pacifista e um Líder Sindical que concorreu diversas vezes à Presidência dos Estados Unidos da América, e obteve mais votos do que qualquer outro candidato indicado por um terceiro partido na história deste país.
Debs morreu em 1926, quando eu nada era além de uma derrota de 14 anos de idade.
Agora o ano é 2001.
Se tudo tivesse corrido do jeito que muita gente imaginava, Jesus Cristo estaria entre nós de novo, e a bandeira americana estaria plantada em Vênus e em Marte.
Quem dera!
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Pelo menos o Mundo vai acabar, um fato previsto com grande alegria por muitos. Vai acabar em pouco tempo, mas não no ano 2000, que veio e se foi. Disso eu concluo que Deus Todo-Poderoso não é grande coisa em Numerologia.
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O avô Benjamin Wills morreu em 1948, quando eu tinha mais de 8 anos, mas não antes de ter certeza de que eu sabia de cor as palavras mais famosas ditas por Debs, que são:
"Enquanto houver uma classe baixa, eu pertencerei a ela. Enquanto houver um elemento criminoso, eu estarei com ele. Enquanto houver uma alma na prisão, eu não serei livre."
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Eu, apesar de ter o nome de Debs, fui sempre um medroso. Dos 21 aos 35, fui soldado profissional, Oficial Comissionado no Exército dos Estados Unidos. Durante esses 14 anos eu teria matado Jesus Cristo, Deus Pai, Deus Mãe, ou o que fosse, se um oficial superior ordenasse. No final abrupto e humilhante e desonroso da Guerra do Vietnã, eu era Tenente-Coronel, com 1.000s e 1.000s de subordinados.
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Durante essa guerra, que foi só uma questão de comércio de armas e de munição, suponho que houve uma possibilidade microscópica de eu, no meio de uma barragem de fósforo branco ou de um ataque aéreo com napalm, ter invocado a volta de Jesus Cristo.
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Nunca quis ser um soldado profissional, embora eu tenha me tornado um bom soldado, se é que isso existe. A idéia de ir para West Point veio de modo tão inesperado quanto o final da Guerra do Vietnã, quase no fim do meu último ano do curso secundário. Eu estava pronto para ingressar na Universidade de Michigan, cursar Inglês e História e Ciência Política, e lá trabalhar em um jornal estudantil diário me preparando para a carreira de jornalista.
Mas de repente meu pai, que era engenheiro-químico metido com a fabricação de plásticos que duravam 50.000 anos, e tão cheios de excrementos quanto um peru de Natal, disse que eu tinha que ir para West Point. Ele mesmo nunca foi militar. Durante a Segunda Guerra Mundial, ele era valioso demais como civil, profundo pesquisador em química, para ser enfiado em uma farda de soldado e transformado num suicida-homicida imbecil em 13 semanas.
Eu já tinha sido aceito pela Universidade de Michigan, quando inesperadamente apareceu a oferta de uma entrevista na Academia Militar dos Estados Unidos. A oferta veio em um momento ruim da vida do meu pai, quando ele precisava de alguma coisa para se vangloriar e impressionar nossos vizinhos simplórios. Eles iam achar que uma entrevista para West Point era uma grande coisa, como ser escolhido para participar de um time profissional de beisebol.
Então ele me disse o mesmo que eu costumava dizer aos novos soldados de infantaria que chegavam de barco ou de avião:
- Esta é uma grande oportunidade.