BORGES

Dentre os muitos excelentes escritores argentinos, Jorge Luis Borges (1899-1986) se destaca pela multiplicidade de temas que aborda em seus textos; pela clareza e despojamento do estilo; e pela casualidade com que vai destilando sua imensa cultura - quase como se estivesse conversando com um amigo num café da calle Florida.
Borges ocupou o cargo de diretor da Biblioteca Nacional e foi membro da Academia Argentina de Letras. Em 1956, foi proibido de ler e escrever pelo seu oftalmologista. A partir daí, dependeu totalmente de sua mãe e outros generosos amanuenses. Lentamente, aprendeu a compor textos de memória e ditá-los depois. O texto abaixo foi extraído de "Otras Inquisiciones", de 1952.

O IDIOMA ANALÍTICO DE JOHN WILKINS

Acabo de verificar que na décima quarta edição da Encyclopaedia Britannica foi suprimido o verbete sobre John Wilkins. Essa omissão é justa, se pensarmos na trivialidade do verbete (vinte linhas de meras circunstâncias biográficas: Wilkins nasceu em 1614, Wilkins morreu em 1672, Wilkins foi capelão de Carlos Luís, príncipe palatino; Wilkins foi nomeado reitor de um dos colégios de Oxford, Wilkins foi o primeiro secretário da Real Sociedade de Londres, etc.); mas condenável, se considerarmos a obra especulativa de Wilkins. Este foi fecundo em felizes curiosidades: interessou-se pela teologia, pela criptografia, pela música, pela confecção de colméias transparentes, pela trajetória de um planeta invisível, pela possibilidade de uma viagem à lua, pela possibilidade e pelos princípios de uma linguagem mundial. A este último problema dedicou o livro An Essay Towards a Real Character and a Philosophícal Language (600 páginas in-quarto,1668). Não há exemplares desse livro em nossa Biblioteca Nacional; consultei, para redigir esta nota, The Life and Times of John Wilkins (1910), de P. A. Wright Henderson; o Wörterbuch der Philosophie (1924), de Fritz Mauthner; Delphos (1935), de E. Sylvia Pankhurst; Dangerous Thoughts (1939), de Lancelot Hogben.
Todos nós, em algum momento, já padecemos um desses debates inapeláveis em que uma dama, esbanjando interjeições e anacolutos, jura que a palavra "lua" é mais (ou menos) expressiva que a palavra "moon". Afora a evidente observação de que o monossílabo "moon" talvez seja mais apto para representar um objeto muito simples que a palavra dissílaba "lua", nada se pode acrescentar a tais debates; excetuando as palavras compostas e as derivações, todos os idiomas do mundo (sem excluir o volapük de Johann Martin Schleyer e a romântica interlingua de Peano) são igualmente inexpressivos. Não há edição da Gramática de la Real Academia de la Lengua Española que não pondere "o invejável tesouro de vocábulos pitorescos, felizes e expressivos da riquíssima língua espanhola", mas trata-se de pura vangloria, sem nenhuma corroboração. Por outro lado, essa mesma Real Academia elabora, a cada tantos anos, um dicionário que define os vocábulos do espanhol... No idioma universal idealizado por Wilkins em meados do século XVII, cada palavra define-se a si mesma. Descartes, em uma epístola com data de novembro de 1629, já anotara que, mediante o sistema decimal de numeração, é possível aprender em um único dia a nomear todas as quantidades até o infinito e a escrevê-las em um idioma novo, que é o dos algarismos(*); ele também propôs a formação de um idioma análogo, geral, que organizasse e abrangesse todos os pensamentos humanos. John Wilkins, por volta de 1664, acometeu o intento.
Dividiu o universo em quarenta categorias ou gêneros, subdivisíveis em diferenças, por sua vez subdivisíveis em espécies. Atribuiu a cada gênero um monossílabo de duas letras; a cada diferença, uma consoante; a cada espécie, uma vogal. Por exemplo: de, quer dizer elemento; deb, o primeiro dos elementos, o fogo; deba, uma porção do elemento fogo, uma chama. No idioma análogo de Letellier (1850), a quer dizer animal; ab, mamífero; abo, carnívoro; aboj, felino; aboje, gato; abi, herbívoro; abiv, eqüino; etc. No de Bonifacio Sotos Ochando (1845), imaba quer dizer edifício; imaca, serralho; imafe, hospital; imafo, lazareto; imarri, casa; imaru, chácara; imedo, poste; imede, pilar; imego, piso; imela, teto; imogo, janela; bire, encadernador; birer, encadernar. (Devo este último censo a um livro impresso em Buenos Aires em 1886: o Curso de Lengua Universal, do doutor Pedro Mata.)
As palavras do idioma analítico de John Wilkins não são toscos símbolos arbitrários; cada uma das letras que as integram é significativa, como o foram as da Sagrada Escritura para os cabalistas. Mauthner observa que as crianças poderiam aprender esse idioma sem saber que é artificioso; depois, no colégio, elas descobririam que é também uma chave universal e uma enciclopédia secreta.
Definido o procedimento de Wilkins, falta examinar um problema de impossível ou difícil protelação: o valor da tabela quadragesimal que é a base do idioma. Consideremos a oitava categoria, a das pedras. Wilkins divide-as em comuns (pederneira, cascalho, piçarra), módicas (mármore, âmbar, coral), preciosas (pérola, opala), transparentes (ametista, safira) e insolúveis (hulha, greda e arsênico). Quase tão alarmante quanto a oitava é a nona categoria. Esta revela-nos que os metais podem ser imperfeitos (cinabre, azougue), artificiais (bronze, latão), recrementícios (limalhas, ferrugem) e naturais (ouro, estanho, cobre). A beleza figura na décima sexta categoria; refere-se a um peixe vivíparo, oblongo. Essas ambigüidades, redundâncias e deficiências lembram aquelas que o doutor Franz Kuhn atribui a certa enciclopédia chinesa intitulada Empório Celestial de Conhecimentos Benévolos. Em suas remotas páginas consta que os animais se dividem em (a) pertencentes ao Imperador, (b) embalsamados, (c) amestrados, (d) leitões, (e) sereias, (f) fabulosos, (g) cães soltos, (h) incluídos nesta classificação, (i) que se agitam como loucos, (j) inumeráveis, (k) desenhados com um finíssimo pincel de pêlo de camelo, (1) etcétera, (m) que acabam de quebrar o vaso, (n) que de longe parecem moscas. O Instituto Bibliográfico de Bruxelas também exerce o caos: parcelou o universo em 1.000 subdivisões, correspondendo a 262 ao Papa; a 282 à Igreja Católica Romana; a 263 ao Dia do Senhor; a 268 às escolas dominicais; a 298 ao mormonismo; e a 294 ao bramanismo, budismo, xintoísmo e taoísmo. Não recusa as subdivisões heterogêneas, verbi gratia, a 179: "Crueldade com os animais. Proteção dos animais. O duelo e o suicídio do ponto de vista da moral. Vícios e defeitos vários. Virtudes e qualidades várias".
Registrei as arbitrariedades de Wilkins, do desconhecido (ou apócrifo) enciclopedista chinês e do Instituto Bibliográfico de Bruxelas; notoriamente, não há classificação do universo que não seja arbitrária e conjetural. A razão é muito simples: não sabemos o que é o universo. "O mundo - escreve David Hume - talvez seja o rudimentar esboço de algum deus infantil que o abandonou pela metade, envergonhado de sua execução deficiente; ou a obra de um deus subalterno, alvo de zombaria dos deuses superiores; ou a confusa produção de uma divindade decrépita e aposentada, que já morreu" (Dialogues Concerning Natural Religion, V, 1779). Pode-se ir além; pode-se suspeitar que não há universo no sentido orgânico, unificador, que tenha essa ambiciosa palavra. Se houver, falta conjeturar seu propósito; falta conjeturar as palavras, as definições, as etimologias, as sinoníinias do secreto dicionário de Deus.
A impossibilidade de penetrar o esquema divino do universo não pode, contudo, dissuadir-nos de planejar esquemas humanos, mesmo sabendo que eles são provisórios. O idioma analítico de Wilkins não é o menos admirável desses esquemas. Os gêneros e espécies que o compõem são contraditórios e imprecisos; o artifício de as letras das palavras indicarem subdivisões e divisões é, sem dúvida, engenhoso. A palavra salmão não nos diz nada; zana, o vocábulo correspondente, define (para o homem versado nas quarenta categorias e nos gêneros dessas categorias) um peixe escamoso, fluvial, de carne avermelhada. (Teoricamente, não é inconcebível um idioma em que o nome de cada ser indicasse os pormenores de seu destino, passado e vindouro.)
Esperanças e utopias à parte, talvez o que de mais lúcido se escreveu sobre a linguagem sejam estas palavras de Chesterton: "O homem sabe que há na alma matizes mais desconcertantes, mais inumeráveis e mais anônimos que as cores de um bosque outonal... Crê, no entanto, que esses matizes, em todas as suas fusões e conversões, podem ser representados com precisão por meio de um mecanismo arbitrário de grunhidos e chiados. Crê que mesmo de dentro de um corretor da Bolsa realmente saem ruídos que significam todos os mistérios da memória e todas as agonias do desejo" (G. F. Watts, p. 88, 1904).

(*) Teoricamente, o número de sistemas numéricos é ilimitado. O mais complexo (para uso das divindades e dos anjos) registraria um número infinito de símbolos, um para cada número inteiro; o mais simples requer apenas dois. Zero escreve-se 0, um 1, dois 10, três 11, quatro 100, cinco 101, seis 110, sete 111, oito 1000... É invenção de Leibniz, que se inspirou (parece) nos enigmáticos hexagramas do I Ching.