Eu sabia que a merda ia bater no ventilador. Morava com Papa e Mama, tinha 22 anos e o velho não parava de me aporrinhar.
- E aí, quando é que tu vai arranjar um emprego?
Emprego, emprego, emprego. Que troço chato. O que eu queria ser mesmo era guitarrista. Ninguém me entendia. Por que ficar feito trouxa trabalhando oito, dez horas por dia para encher o bolso do patrão, e recebendo uma merreca por isso? Acabava que nem o meu pai, depois de 40 anos no mesmo emprego, fazendo algo que detestava, se aposentando com uma mixaria e dando graças a Deus que tinha conseguido comprar a casa própria e um carro. Quer dizer, algo parecido com um carro.
O que me fudeu foi o exército. Tinha terminado o segundo grau e me pegaram pelo pescoço. Nada de desculpas: batalhão de comunicações. Nem gosto de me lembrar deste tempo. Vamos dizer que, depois de um ano, conseguiram fazer com que eu desenvolvesse um verdadeiro horror a qualquer tipo de disciplina. Fiz tudo certo, mas rangendo os dentes. Quando saí, jurei por todos os deuses e universos existentes que jamais me submeteria a outra pessoa.
Aí é que estava o problema. Os meus amigos até me arranjavam algum tipo de serviço, mas não durava muito. Dois, três dias, no máximo. Num deles, fiquei um dia apenas. Era vendedor de sapatos. Me colocaram dentro de um uniforme ridículo e eu tinha que ficar na porta da loja, prestando atenção nas mulheres que paravam defronte à vitrine. Se demoravam um pouco além do normal, tinha que me aproximar, sorrindo, e dizer algo como "a senhora não gostaria de entrar?"
Então a mulher entrava - geralmente uma gordona feiosa - e escolhia um sapato para experimentar. Acomodava aquela bunda cheia de merda num dos sofás e eu tinha que catar no depósito um par de sapatos do número, modelo e cor que a aberração da natureza tinha escolhido. Claro que eu demorava, pois ainda não conhecia bem o depósito. Quando eu voltava, a mulher já estava me olhando feio. Tinha que me ajoelhar - eu disse AJOELHAR - na frente daquela criatura repugnante e TIRAR O SAPATO DELA. Como era verão, subia aquele chulé asqueroso e eu tinha que continuar sorrindo. Calçava o sapato no pé daquela imensa gelatina de bosta e aí ela se levantava, andava até o espelho que ficava apoiado no chão e se virava de um lado para o outro. Levava uma eternidade. Aí ela voltava e me perguntava: "não tem amarelo?"
Agüentei até o meio-dia. Na hora do almoço, tirei o uniforme e falei pro gerente: "amanhã eu venho acertar os papéis."
Assim era a coisa. Até o dia em que comprei a guitarra. Uma tia minha, provavelmente devido a senilidade precoce, me deu 500 paus de presente de aniversário, em segredo - pois o velho ia falar pra caralho se soubesse que a irmã dele estava dando dinheiro para um "vagabundo que não quer saber de nada". Beijei as mãos da minha tia, emocionado. Saí correndo para o centro da cidade, como se o céu tivesse se aberto e alguma porra de um arcanjo tocasse harpa para mim.
Na loja de instrumentos musicais, escolhi minha guitarra. Era uma imitação muito vagabunda de uma Gibson Flying V que pesava meia tonelada. Mas era o que o dinheiro podia comprar. O vendedor ficou curioso: "qual o amplificador que tu usa?" Respondi que não tinha amplificador. O sujeito me perguntou então como é que eu pretendia tocar. Disse que ia ligar no aparelho de som, aí ele caiu na gargalhada. Me disse que era até possível, mas a qualidade do som que ia sair era mais ou menos a de um radinho de pilha. Perguntei quanto era um amplificador de guitarra. Ele me falou números grandes demais para meu bolso. Só dava mesmo para comprar o instrumento. Merda, tudo bem. Voltei para casa abraçado com minha querida guitarrinha.
No firmamento, os planetas giravam e tramavam uma conspiração para enxovalhar meu futuro.
Como já disse, o velho tinha algo parecido com um carro. Disse "parecido" porque estava em petição de miséria. Era um fiat 147 de duas cores: bege e ferrugem. As portas não tinham trinco, eram fechadas com fios de arame. O banco do acompanhante era solto, o que transformava qualquer passeio em uma sessão num touro mecânico. O câmbio só ia até a segunda marcha - o que, pensando bem, até era melhor, pois aquele amontoado de ferro velho podia se desmanchar em velocidades mais elevadas. Para dar ignição, eu precisava empurrar o traste enquanto o velho ficava girando a chave até o motor pegar. Aquele carro era uma espécie de resumo irônico da vida do meu pai.
Não à toa, Papa entornava uma birita. Tendo vivido uma vidinha patética como a dele, era melhor esquecer de si mesmo. Pois no dia em que comprei a guitarra, o velho tinha saído de carro (que milagrosamente tinha dado partida sem ter que ser empurrado - não falei que os astros estavam de sacanagem comigo?) para ir ao boteco encher a cara.
Ainda não falei que morávamos em uma casa afastada da cidade, com um vastíssimo quintal e muito verde ao redor. A estradinha que levava até a rodovia era de terra batida.
Pois bem, voltei para casa com minha guitarra enquanto o velho estava no bar, bebendo, e minha mãe estava visitando uma vizinha. Liguei o instrumento no aparelho de som e comecei a tocar. Tinha algumas noções de música, que um colega de quartel me ensinara em um violão ensebado. O vendedor estava certo: o som que saía era horrível. Mas eu estava feliz, me sentindo uma espécie de Kurt Cobain rural. Já podia prever um futuro tão brilhante que teria de usar óculos escuros. Carros. Mulheres. Mansões. Mulheres. Iates. Mulheres. Viagens. Mulheres.
Enquanto me deleitava com esta edificante meditação, o velho estava tomando a saideira no boteco. Tinha bebido bem mais que o normal. Pegou o carro, que novamente deu partida sem problemas, e foi guiando até em casa. Quando ele saiu da rodovia e entrou na estradinha de terra, já nem se lembrava do enorme buraco que a chuva tinha cavado na terra batida e que a prefeitura não tapava fazia três meses. Por enorme, quero dizer que o buraco tinha uns 2 ou \n'; document.write(barra); } } changePage();
Neste ponto, Saturno pisca o olho para Júpiter.
O velho subiu a estradinha, bufando e praguejando. Perto de casa, pôde ouvir a minha interpretação de Smoke on the water, do Deep Purple. Quando ele abriu a porta e me viu tocando guitarra na sala, seu rosto ficou roxo. Parei de tocar, prevendo encrenca.
- DE ONDE SAIU ESSA MERDA?
- É emprestada de um amigo.
- DESLIGA ESSA PORRA! DESLIGA ESSA PORRA!
(despluguei a guitarra do som)
- JUNTA A TUA ROUPA E SAI DA MINHA FRENTE!
- Hein?!?
(ele me agarra pela gola da camisa e grita na minha cara)
- VAGABUNDO! VAI TRABALHAR! SEU MERDA! SEU MEEERDAAA! SOME DAQUI! VAI EMBORA ANTES QUE EU TE MATE, DESGRAÇADO!
Bem, percebi que o mais sensato a fazer era sair dali mesmo, antes que ele partisse para a porrada. Seria ridículo sair no soco com o meu próprio pai. Enfiei minhas 3 camisas, 2 cuecas, uma calça e um tênis na mochila. Estava também de saco cheio com aquela situação. Foda-se. Enquanto o velho estava na cozinha, bebendo mais cachaça, entrei no quarto dos meus pais e peguei uma grana da bolsa de Mama. Ela entenderia. Agarrei a guitarra e saí silenciosamente do meu "lar, doce lar", em direção ao maior, mais atemorizante, mais estimulante ponto de interrogação que já tinha visto.