FERNANDO PESSOA (1888-1935)

Um dos poucos bons motivos para nascer no Brasil é poder ser alfabetizado (se você tiver sorte, claro) em português e poder, conseqüentemente, (se você tiver sorte, claro) ler Fernando Pessoa no original. Isso porque a poesia, traduzida, perde muito do seu sabor. É melhor aprender italiano para ler Dante, é melhor aprender inglês para ler Withman, é melhor aprender francês para ler Baudelaire. Ainda bem que Pessoa - grande poeta - nos poupou de mais um curso de idiomas pois escrevia em português mesmo. Famoso pelos seus heterônimos (Ricardo Reis, Alberto Caeiro, etc...), ele assinou alguns poemas como "Fernando Pessoa, o próprio", deixando bem explícito que não estava encarnando nenhum dos seus escritores-personagens inventados. Um destes poemas, reproduzido abaixo (escrito quando Pessoa tinha 25 anos), é somente um fragmento. Se quiser ler o poema todo, vá para http://www.secrel.com.br/jpoesia/fpessoa07.html

CHUVA OBLÍQUA

Atravessa esta paisagem o meu sonho dum porto infinito
E a cor das flores é transparente de as velas de grandes navios
Que largam do cais arrastando nas águas por sombra
Os vultos ao sol daquelas árvores antigas...

O porto que sonho é sombrio e pálido
E esta paisagem é cheia de sol deste lado...
Mas no meu espírito o sol deste dia é porto sombrio
E os navios que saem do porto são estas árvores ao sol...

Liberto em duplo, abandonei-me da paisagem abaixo...
O vulto do cais é a estrada nítida e calma
Que se levanta e se ergue como um muro,
E os navios passam por dentro dos troncos das árvores
Com uma horizontalidade vertical,
E deixam cair amarras na água pelas folhas uma a uma dentro...

Não sei quem me sonho...
Súbito toda a água do mar do porto é transparente
E vejo no fundo, como uma estampa enorme que lá estivesse desdobrada,
Esta paisagem toda, renque de árvores, estrada a arder em aquele porto,
E a sombra duma nau mais antiga que o porto que passa
Entre o meu sonho do porto e o meu ver esta paisagem
E chega ao pé de mim, e entra por mim dentro,
E passa para o outro lado da minha alma...