COLETIVO
Uma coisa que nunca compreendi de todo é a verdadeira obsessão que os brasileiros tem em relação a automóvel. É um fenômeno que daria um belo estudo de caso para os psiquiatras desocupados. Este fenômeno já foi, inclusive, explorado por uma certa campanha publicitária. Claro que o carro é utilíssimo em certas situações, mas as pessoas acabam apegando-se ao veículo de maneira patológica. Tem gente que não sabe viver sem carro.
E os acidentes de trânsito? Digo, não aqueles em que todo mundo morre, mas os que são irrelevantes, do tipo um amassadinho no pára-choque? Uma vez, presenciei uma cena lamentável: na subida da avenida Brigadeiro Luiz Antônio, aqui em SanPablo, um fusca bateu na traseira de um Audi A4. Os danos no Audi foram, para dizer muito, apenas arranhões. Mas o dono, aparentemente um jovem executivo engravatado, desceu do carro ARMADO. Ele apontou uma pistola (acho que era uma Glock 9mm) para a cabeça do motorista do fusca, a essas alturas apavorado. Eu, que estava bebendo uma cervejinha na esquina, fiquei só olhando. O sujeito do Audi falou tantos palavrões para o cara do fusca, que fiquei até chateado. O cara, sob a mira da pistola, e coberto de impropérios, começou a chorar. O dono do Audi, então, se acalmou um pouco, e voltou para seu carro - não sem antes entortar a antena do fusquinha. Saiu cantando pneu, e sem olhar para trás.
Acho que os automóveis deixam as pessoas meio malucas.
Esses dias, fiz meu tradicional roteiro de almoço, que inclui descer a avenida Pamplona e atravessar a alameda Santos. É uma rua muito chata de atravessar do lado esquerdo, pois não dá tempo entre o abrir e fechar dos semáforos (que despejam toneladas de carros por segundo) para cruzar seus cinco metros. A solução é prestar atenção ao fluxo de trânsito e achar uma brecha para cruzá-la. Pois bem, num desses dias eu avaliei mal o vai-e-vem dos carros e forcei um Ford KA a frear para que eu pudesse passar. A motorista, enfurecida, urrou: ANIMAAAAAAAALLLLLL!
Não foi um grito, foi um urro mesmo. Fiquei assustado: uma pessoa que se irrita de maneira tão fácil assim bem que poderia ter me atropelado.
E o símbolo de status que o automóvel representa? Tem gente que se sente um pedaço de bosta, se não tem carro. E, depois que tem um carro, quer ter um carro melhor. Vejam o caso do Boris: empresário, bem-sucedido, começou com um Renault. Achando pouco, passou para um Volvo. Depois para um Ford Taurus. Aí pegou uma Mitsubishi Pajero com todos os acessórios e alguns extras. Quando foi parado no semáforo, o que parecia um mendigo puxou o revólver e gritou para ele sair do carro. Arriscando a vida, o Boris pisou fundo e passou o sinal, deixando o assaltante para trás. Depois disso, trocou a enorme caminhonete por um Fiat Uno.
Por essas e por outras, prefiro andar de ônibus. É mais barato. Quando se chega ao destino, não é necessário ficar procurando vaga ou pagar estacionamento (caríssimo, por sinal). O trânsito nos corredores de ônibus é (quase) sempre livre. Não existe stress nenhum. Pode-se ler durante o percurso, ou dar uma cochilada. Uma vez, de teimoso, peguei um táxi da casa para o escritório. Levou uma hora e me custou vinte e oito pratas. De ônibus, o mesmo percurso leva vinte minutos e custa um real e quarenta centavos. A despesa mensal, para quem usa ônibus durante 21 dias (média de dias úteis), ida e volta, é de $58,80. Se preferir usar o carro, só de estacionamento serão $180,00. E 28 horas perdidas no trânsito.
Ninguém acredita quando eu digo que não tenho nem pretendo ter carro. Acho que deve haver algo de errado comigo.