SHAKESPEARE

Esses dias, folheando uma revista de decoração, deparei-me com uma sala na qual uma parede, de alto teto, ostentava a transcrição de um medonho texto edulcorado, inacreditavelmente atribuído a Shakespeare, que circula faz algum tempo pela Grande Rede.

Creio que vocês sabem do que estou falando.

Eu até compreendo que uma desgraçada adolescente que nunca abriu um livro, apenas as pernas e os favoritos do MSN, possa comprar jumento por lebre e acreditar, numa branca inocência de inseto, que parvoíces iguais àquelas pudessem, em tempo algum, provir do Imortal Bardo.

Mas, de uma mulher que se diz arquiteta? Ou - talvez - eu esteja levando muito à sério as arquitetas?

Ou as mulheres?

Well, para relaxar, demonstrarei num pequeno soneto de Shakespeare como é distante o estilo de uma pessoa imbuída de alguma missão - qualquer que seja ela - e o de alguma caipira que achou algo "bonitinho" na internet. E, pior ou melhor - depende do seu ponto de vista -, vende salas com aquela merda reproduzida nas paredes. E com o autor errado.

CXXI

'Tis better to be vile than vile esteem'd,
When not to be receives reproach of being;
And the just pleasure lost, which is so deem'd
Not by our feeling, but others' seeing:

For why should others' false adulterate eyes
Give salutation to my sportive blood?
Or on my frailties why are frailer spies,
Which in their wills count bad what I think good?

No, I am that I am, and they that level
At my abuses reckon up their own:
I may be straight though they themselves be bevel

By their rank thoughts my deeds must not be shown;
Unless this general evil they mantain,
All men are bad and in their badness reign.


121

Melhor ser vil do que por vil ser tido,
Quando se acusa a quem não é de o ser;
E um justo prazer morre, envilecido,
Não por nós, mas por quem assim quer ver.

Por que um olhar adulterado iria
Louvar-me o sangue de impulsivo tom,
Ou se sou fraco, algum mais fraco espia,
Vir dar por mau o que eu pretendo bom?

Não, sou o que sou; quem achar iníqüos
Os meus abusos, fala pelos seus:
Posso ser reto, já que são oblíqüos,

Não vê a mente espúria os feitos meus;
A menos que a sentença seja vera,
De que todos são maus e o mal impera.