HEITOR
Crianças, consegui uns dias de férias. Quando vocês estiverem lendo isso, é bem provável que eu esteja mergulhando em Cabo Frio, tentando acertar um arpão na bunda de um tubarão mais distraído.
Mas vou deixar um breve relato que penso irá entreter suas mentes entediadas.
Sempre afirmei, com certo orgulho, mas também com certa tristeza, que tenho pouquíssimos amigos. Dá pra contar com a mão esquerda do Lula. Mas, ao mesmo tempo que tenho pouquíssimos amigos, todos são tão bizarros que, se fossem apanhados pela NASA, seriam levados para o famoso Hangar 18 e jamais teríamos mais notícias deles.
Liguei para um desses amigos, que é um amigo tão antigo que conseguiu ser meu colega de faculdade. Ele teve um filho, e colocou o nome do menino de Heitor, provavelmente em homenagem a um dos Três Porquinhos.
Não que eu o esteja censurando. Eu gosto dos Três Porquinhos. Inclusive o Heitor, na minha opinião, era muito mais simpático que o Cícero ou o Prático. Inclusive o Prático usava aquele macacão azul, e não contava com a minha especial afeição, pois sempre me trazia à lembrança o maldito Lúmpem-Proletariado.
Mas aí veio o Lobo e fudeu com tudo, porém percebo que estou perdendo o rumo da conversa.
Pois bem, fiz a ligação, conversamos sobre amenidades e, depois de um tempo, ele insistiu muito para que eu falasse com o filho dele. Eu concordei, apesar de não ter a menor idéia do tipo de diálogo que eu poderia ter com um menino de 5 anos.
Não sei se vocês já tiveram essa experiência, mas conversar com crianças é o maior barato. É a mesma coisa que falar com um bêbado bem pequenininho.
Aí comentei com ele que, no dia em que ele nasceu, eu estava lá no hospital junto com o pai dele.
Ele respondeu, seriíssimo: "não lembro disso"
A conversa durou uns 2 minutos até que o telefone voltou às mãos do meu amigo e, quando já tínhamos conversado tudo o que havia para ser conversado, ele me disse que o filho queria falar comigo de novo.
Aí o telefone foi passado de novo pro Heitor e ele me perguntou: sabe o que eu acho do meu pai?
Senhoras e Senhores, toda a Educação Formal que eu recebi não foi suficiente para me preparar para este tipo de situação.
"Não, Heitor, não sei. O que você acha do Papai?"
"Eu acho que ele é um pirralho grandão. Um pirralho grandão"
Numa situação normal, a conversa terminaria por aí, pois eu ia rolar no chão e deixar cair o telefone, e minha carcaça seria encontrada pela polícia uma semana depois, morto devido a uma overdose de risada, se é que isso existe.
Mas não, eu ainda não tinha bebido todos os sete litros de vodka que bebo diariamente - por recomendações médicas, é claro - e estava razoavelmente no comando da minha razão, como uma espécie de Empávido Comandante do Titanic.
Falei pro menino: "Olha, eu vou te dizer uma coisa, tá, Heitor, mas vou dizer bem baixinho porque é só prá ti, tá?" Ele mordeu a isca, lógico, aí eu prossegui: "O Papai é muito esquecido, tá? Eu conheço ele e ele se esquece das coisas. É muito importante, Heitor, que TODOS OS DIAS - pres'tenção - TODOS OS DIAS, quando você acordar, diga pra ele: 'pai, cê num passa de um pirralho grandão'"
Agora eu vou precisar ir até Brasília para cortar mais um dedo da mão esquerda do Lula, para poder contar as minhas amizades.