REPOSTAGEM

Crianças, estou sem paciência para escrever. Qualquer um que reclamar pode reverter esta lamentável situação depositando uns fifty-grand na minha conta numerada off-shore. Mas, como ninguém lê meus archives, vou repostar esse singelo texto, revivido de algum ponto do passado.

LEVEDO PROVOCA TSUNAMI NO MERCADO DE ARTE


"Colonização Lusitana", grafite sobre embalagem industrial

O concorrido leilão de algumas obras do conceituado desenhista Padre Levedo, que será na Sotheby’s, em Londres, é o primeiro na história da Casa que receberá lances em uísque Johnny Walker Blue Label, por imposição do Artista. A sua obra “Colonização Lusitana” (desenho a toco de lápis em papel de cigarro Derby, 10x15cm) tem o lance mínimo de trinta caixas de JWB. O evento reacendeu discussões acaloradas sobre o valor e o alcance da Obra do Padre, que sempre foi um Artista embebido de Pugnácia e Ousadia - mas sem chegar a extremos como mostrar a bunda para uma platéia de teatro, como alguns fazem. As opiniões dos críticos especializados variam desde a adoração extática até o muxoxo estético, sem excluir a prostração dubitativa e o insulto patafísico.

Fulton Dickgrabber, do Art Thou Serious, diz: “Levedo é o verdadeiro Picasso do Século XXI. Sua Obra é a ruptura da sublimação consciente, mesmo que não saibamos o que isso signifique. A cristalização do microssegundo em que o significando ultrapassa a metalinguagem paradigmática é... é... cazzo, me perdi! Vamos de novo: a cristalização...”. Já Tabatha Whore, da Blinkin’ Ay!, é menos entusiasmada: “Levedo é uma espécie de Bart Simpson da Arte Moderna. Na verdade, ele está tirando uma com a nossa cara. Gostaria de dar um chute no saco dele. Esse homem precisa ser desmascarado. Será que ninguém vê isso?!”.

Mas, e o Artista, o que pensa a respeito dessa discussão? Fomos à procura de Levedo e ele nos deu a seguinte declaração:

“Já estou acostumado a essa confusão sobre minha Obra. O problema é que as pessoas interpretam muito superficialmente a mensagem contida nela. Em ‘Colonização Lusitana’, por exemplo, alguém pode dizer que vê maçãs e pêras, mas isso está longe de desvendar o significado alegórico da composição. Ora, direis, de fato são maçãs e pêras; talvez romãs, ou nêsperas, caquis, toranjas ou frutas-do-conde. Mas obviamente há muito mais por trás disso”.

“Consideremos novamente o título: ‘Colonização Lusitana’. O título desvenda a obra: as duas maçãs em primeiro plano representam os peitões empinados das jovens índias, e as folhas ao redor são uma metáfora para os ávidos dedos Portugueses que os apalpam. Ao fim e ao cabo, estes peitos, de tanto serem buzinados pelos portugas e sugados por vorazes curumins, ficam caídos, e estão representados em segundo plano pelas duas pêras que já não tem tantas folhas ao redor, pois já não há tantos dedos interessados em apalpar aquelas muxibinhas”.

[neste ponto o Artista faz uma pausa e dá um gole no seu uísque sesquicentenário; e prossegue]

“Temos aí então um retrato perfeito do que foi o processo da colonização. E é também uma mensagem sobre a inexorabilidade da decrepitude física, acelerada pelos excessos. Agora passemos ao fundo do desenho. Nele, as linhas horizontais representam o Homem Terreno, materialista, enquanto que as verticais aludem claramente ao Homem Espiritual, que eleva-se até Deus. As linhas oblíquas são os homens que dizem: ‘caraio, posso buscar Deus e tomar umas biritas de vez em quando! Qualé o pobrema?’, enquanto as linhas que não são dessas três categorias representam os que, como diria Churchill, cagam pra isso tudo”.

“Conclui-se, naturalmente, que ‘Colonização Lusitana’ é um vasto panorama Artístico-Histórico-Social-Político-Religioso-Hortifrutigranjeiro. Creio que jamais, em toda a História da Arte, uma obra conseguiu transmitir tanto de uma maneira tão sucinta”.

Saímos da presença do Santo Padre, mais uma vez absolutamente aparvalhados com o lume estroboscópico da sua Mamútica (Mamútica?) Sapiência.