ATITUDE É TUDO
O Gustavo era apenas mais um Jovem Empreendedor, daqueles que passariam com um trator sobre a mãe, se isto fosse necessário para alcançar o seu objetivo. Que obviamente era entupir o rabo de dinheiro. Uma figurinha extremamente comum, como podemos perceber.
O seu negócio era software. Começou fazendo uns programinhas e, quando viu, tinha uma carteira de meia-dúzia de clientes e estava na hora de expandir. Contratou gente, contraiu dívidas, aumentou a carteira de clientes, pagou as dívidas e sua empresa começou a andar suave.
A sorte lhe sorriu no dia em que conseguiu marcar, com uns figurões lá de Brasília, uma demonstração do software que fabricava. O contrato, se aprovado e firmado, era algo que faria qualquer Empresário ter Orgasmos Múltiplos. O filé era tão suculento que ele mesmo decidiu ir até lá apresentar o sistema para o grupo de burocratas.
Chegou no aeroporto, pegou o táxi e foi até o prédio da Esplanada. Foi recebido por um Barnabé-Mirim[1] que o levou até um Barnabé-Açu, o cara do qual dependia a Grande Decisão. Apertos de mão, cafezinho, e o levaram para a sala de reuniões. Ele acertou as coisas no notebook e, como faltava um tempo pro início da reunião, foi até o banheiro.
Chegou lá e começou a fazer o seu xixi, repassando mentalmente todo o roteiro que tinha planejado para enrolar os Enrolões. Neste ponto, ele percebeu que havia a necessidade de expulsar uma pequena quantidade de gases que estavam lhe causando um certo desconforto no ventre.
Ao iniciar o Êxodo Gasoso, Gustavo cometeu dois erros, um de avaliação e um de administração, a saber:
1. Os gases não eram exatamente gases;
2. O reverso da turbina traseira não foi acionado a tempo.
Enfim, ele borrou-se de escorrer pelas pernas. São nessas ocasiões em especial que refletimos profundamente sobre a Transitoriedade da Existência, o Sentido da Vida e se Deus tem alguma coisa contra nós.
Entrando num reservado, tratou de aquilatar os estragos daquele Tsunami intestinal. Desvestiu a calça e a cueca. Esta última, que de impecavelmente branca havia se transformado numa tela de Pollock, foi descartada. A calça, que não podia seguir o mesmo destino, e que providencialmente era preta, sofreu uma tentativa de limpeza com papel que só agravou a situação.
A coisa mais sensata a fazer era lavar a calça. Foi o que fez o Gustavo. Com cautela, saiu do reservado e dirigiu-se à pia. Usou bastante sabonete líquido, esfregou bem e lavou a calça rapidamente. Por sorte, o banheiro tinha aqueles aparelhos para secar as mãos que tem um jato de ar quente bem forte. Ele estava segurando a calça debaixo do aparelho, nu da cintura para baixo, quando a porta do banheiro abriu e o Barnabé-Açu adentrou o recinto.
A cena que se podia ver é provavelmente o “worst case scenario” que alguém preocupado com o marketing pessoal possa imaginar. Confesso que entendo pouco de Marketing, mas presumo que mostrar a bunda para um cliente em potencial só funciona em alguns Nichos de Mercado bem específicos, o que definitivamente não era o caso.
O Figurão passou calmamente ao lado do Gustavo e foi fazer xixi. Terminou, foi lavar as mãos e enquanto isso olhou pelo espelho.
- Está tudo bem com você?
E ele, sem alterar a expressão compenetradíssima do rosto e ainda mantendo a calça a secar debaixo do aparelho:
- Tudo bem. Vou iniciar a apresentação daqui a dez minutos, no horário.
Não conseguiu fechar o contrato, não se sabe exatamente por que. Mas, a partir daquele dia, passou a levar uma calça e uma cueca de backup na maleta do notebook.
[1] “Barnabé” = Funcionário Público. Na Taxiologia, é uma forma de vida situada entre a muquirana e o tubarão.