O PIAUÍ É A ESCÓCIA DO BRASIL
Minha querida titia, por ocasião do meu aniversário de dez anos, presenteou-me com um belo álbum contendo as melhores histórias do Tio Patinhas. Era uma edição comemorativa, creio, dos vinte anos do surgimento do Pato Muquirana aqui em Pindorama. Um volume de capa dura, vistoso, cosa muy linda. Fiquei hipnotizado com aqueles quadrinhos em formato A4, pois só conhecia até então os gibis.
Uma das histórias - eram sete, se não me engano - leva Patinhas e agregados para a Escócia, onde são recebidos num castelo enevoado por um simpático velhinho de saia que lhes serve haggis. Huguinho pergunta pro velho: do que é feito isso? E o velho responde: Ah, um bocadinho disso, um bocadinho daquilo... e é uma delícia! (chlep!)
Na ocasião não compreendi o porquê do pudor de Disney em revelar o que era exatamente o haggis. Está bem, quadrinhos não são livros de receita, mas esse mistério gastronômico perdurou alguns instantes na minha mente de molecote e depois foi sepultado no subconsciente.
Até que...
Sábado passado estava assistindo ao Pica-pau. Não ao Pica-pau clássico, aquele dadaísta de perna grossa e dois inesperados dentões no bico[1], mas uma versão menos anárquica - e mais chata - do pássaro psicopata. Num determinado ponto da trama, o bichinho, que encarna um escocês piloto de rally, se vê frente a uma placa onde lê-se: "FREE HAGGIS". Claro que a placa era falsa, plantada solertemente pelo urubu safado que é o tradicional desafeto do Pica-pau.
Este fato, que poderia muito bem passar despercebido por uma mente menos atenta, provocou-me um curto-circuito sináptico e trouxe à tona do oceano dos meus pensamentos aquela dúvida adormecida: QUE DIABOS É HAGGIS?
Interrogando São Google, finalmente soube o que é isso, e não me privarei de compartilhar esta importantíssima, quiçá vital, informação com o meu Rebanho.
RECEITA TRADICIONAL DE HAGGIS
Para doze pessoas
- 1 estômago de ovelha
- 1 pulmão de ovelha
- 1 coração de ovelha
- 1 fígado de ovelha
- meio quilo de graxa de rim de ovelha
- 1 quilo de farinha grossa de aveia (não a Quaker, mané, farinha de aveia escocesa!)
- 2 cebolas
- pimenta-do-reino branca e preta moída na hora
- noz-moscada
- sal
Vire do avesso o estômago de ovelha, lave bem, esfregue sal, lave de novo, raspe com uma faca e deixe de molho na água com sal de um dia para o outro. Num panelão, coloque o coração, o fígado e o pulmão para cozer. Coloque a traquéia para fora da panela, pois o pulmão vai expelir algumas impurezas. É bom colocar um recipiente para recolher o que vai sair dele. Cozinhe por uma hora e meia. Retire as vísceras e pique tudo bem picadinho com a cebola. Numa frigideira, doure a aveia até ficar levemente marrom. Misture todos os ingredientes, acrescentando o caldo do cozimento das vísceras até que a massa adquira uma consistência firme. Estufe o estômago da ovelha com essa massa até dois terços do seu volume. Aperte para que não sobre ar lá dentro. Amarre com um barbante grosso as pontas do estômago e fure-o em alguns pontos com uma agulha grossa, pois a aveia vai inchar quando absorver o líquido e o estômago pode estourar. No panelão, coloque um prato no fundo e ponha o haggis para cozinhar na água por umas quatro horas. Aí é só servir, tradicionalmente acompanhado de "tatties" (batatas) e "neeps" (nabos) amassados. Bon apetit!
Agora, me digam: isso daí, com pouquíssimas modificações, é ou não é uma buchada de bode?
[1] como já disse um aluno de biologia numa prova: "os pássaros tem só um dente na boca, que se chama bico"