“Quando eu era menino, pensava como menino; mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino”
I Coríntios 13:11
I Coríntios 13:11
Quando eu estava lá pelos meus quinze anos, namorando uma ninfomaníaca que além de drenar toda a energia do meu corpo ainda insistia em me entupir de livros, discos e filmes, fui apresentado a Rubem Fonseca, Bukowski, Glauco Mattoso, Mario Benedetti, Julio Cortazar, Mempo Giardinelli, Le Luthiers, Mahler, Pessoa, Rimbaud, Alain Resnais, Kurosawa e por aí vai.
É por isso que sempre afirmo que devo tudo o que sou e tudo o que tenho às mulheres que conheci. Não fossem elas, eu seria hoje provavelmente um deputado sem nenhum escrúpulo, ou um advogado de porta de cadeia, ou – o horror, o horror! – apresentador da MTV.
Naquela tenra idade, sendo abusado sexualmente repetidas vezes por uma tarada que só se contentava com uma refeição completa e bombardeado com uma pletora[1] de informação, não podia realmente me queixar. Foi uma época divertida.
Quando se tem quinze anos, Rubem Fonseca e Bukowski são geniais. Hambúrguer é a melhor iguaria do mundo. Fumar maconha é o ápice da transgressão. Temos todo o tempo do mundo, como diria o Renato.
Lendo “Lúcia McCartney”, do Rubem, com meus ávidos olhos adolescentes, pensei: “cazzo, um dia quero escrever como esse cara”. Para mim, Fonseca e Bukowski eram o máximo, parecia impossível superá-los. É, eu tinha quinze anos.
Esses dias li “Secreções, excreções e desatinos”. Trinta e um anos separam a publicação de SED e LM, e não consegui, sinceramente, perceber diferença alguma entre o que o Rubem escrevia em 1970 e o que ele escreveu em 2001. O mesmo estilo que uma vez me fascinou, a frase curta, direta, crua, os detalhes fesceninos – no que ele se assemelha muito a Bukowski – já não dava aquele barato.
É por isso que não entendo o bafafá todo a respeito de gente que escreve mais ou menos nos moldes destes dois escritores. Canso de ler pessoas indignadas falando muito mal de fulano ou beltrano, justificando a sua Santa Ira com uma simplificação pueril: o que eles escrevem é uma merda! E também há a contrapartida, gente que defende visceralmente este modo de escrever, que é apenas um dentre dezenas de modos de escrever. Todos falam como se o assunto fosse de uma importância imensa.
God, muito barulho por nada. Nesses momentos, me lembro do Robert Fripp, o guitarrista malucão do King Crimson. Uma vez, questionado sobre a modesta vendagem dos seus álbums solo (muitos dos quais são, a bem da verdade, soporíferos), Fripp respondeu: isso realmente não me preocupa. A obra vai encontrar o seu lugar por conta própria.
É isso. Fonsecas, Bukowskis e seus replicantes sempre terão um lugar para suas obras: o sovaco de um adolescente de quinze anos. Enxergo nisso uma espécie de Manifestação da Justiça Divina.
NOTAS
[1] este termo estava na minha manga há muito tempo!