DA SÉRIE "BIOGRAFIAS COMENTADAS" - VLADIMIR, UM PATRIOTA ROMENO

Estava eu, num desses raros momentos em que as noviças consentem em largar meu Santo Cajado, navegando pela Rede quando - por algum tipo de conexão aleatória das minhas sinapses - fui verificar no gúgou o que havia no menu du jour sobre Vlad Tepes, também conhecido como Vlad Dracula, ou Voivode (príncipe) Dracula.

Fiquei surpreendido com a quantidade de textos detalhados sobre esse ilustre romeno, que deve boa parte da sua fama ao fato de estar associado ao personagem de Bram Stoker, naquele livro horrível sobre vampiros. Eu disse horrível porque o livro, analisado com os olhos apressados de hoje, é simplesmente um porre. E não me venham dizer que isso é devido ao fato de "Dracula" ter sido escrito em 1897, pois Jack London, em 1906, já começava a publicar "White Fangs", que de longe é muito mais divertido e tem como protagonista um cachorro.

Os escolásticos, que são uma das poucas classes profissionais que ganham a vida pelo simples fato de nunca estarem de acordo uns com os outros, não conseguem dizer se o Stoker se baseou de fato no Vlad Tepes para compor seu personagem Drácula. A própria vida do Vladimir é encoberta de mistério, pois é difícil saber o que houve há mais de quinhentos anos atrás, quando as pessoas não se preocupavam em registrar por escrito o que acontecia no dia-a-dia, já que estavam muito ocupadas em tratar de assuntos triviais como arar o campo e se esconder no mato quando invasores apareciam para estuprar qualquer coisa que possuísse um orifício corporal.

A carreira de Vlad como administrador (apesar de ter administrado apenas um cu-de-mundo como a Transilvânia) ainda hoje, através de uma cuidadosa análise, pode nos oferecer preciosos ensinamentos. Na verdade, admiro muito esse cara. Depois de ter morto qualquer um que o impedisse de chegar ao trono, instalou um governo na base do "quem manda aqui sou eu". Era um sujeito muito, mas muito rígido em relação a questões morais, como veremos adiante.

Uma das primeiras coisas que o Vladimir fez no poder foi resolver a questão dos pobres. Fez saber a todos os despossuídos, aleijados, mendigos - enfim, a parte de baixo da pirâmide social da época -, que haveria um mega-banquete para eles, pois ele não gostava de ver pessoas morrendo de fome no seu reino. Todos os fodidos da sociedade compareceram em peso. Comeram e beberam até de madrugada, quando nosso Vladimir, que até então não tinha dado as caras, apareceu e perguntou para todos os presentes: "Que mais vocês desejam? Vocês desejam se ver livres de preocupações, sem sentir falta de nada desse mundo?" Quando responderam que sim, claro!, o príncipe ordenou que aquelas pessoas fossem trancadas na sala do banquete e botou fogo no recinto. Não sobrou ninguém. Vlad explicou posteriormente seu ato para os boyars[1] declarando que aqueles não seriam mais um peso para ninguém, e que a pobreza estava, de um modo inegável, erradicada do seu reino.

Uma das muitas curiosidades a respeito do nosso Vladimir é que ele costumava espetar seus desafetos em altas estacas de madeira, que eram enfiadas em seus rabos. A isso se dá o nome técnico de empalação, e é, talvez, a pior maneira imaginável de morrer - ainda que a Ciência tenha evoluído muito desde a Idade Média. Pessoas empaladas às vezes levam dias até baterem as botas, e eventualmente Vlad usava métodos mais rápidos, pois afinal a fila tinha que andar. Ele gostava, por exemplo, de remover a pele das pessoas, assá-las, cegá-las, pregar pregos nos seus crânios e outras coisas que fazem certos criminosos de hoje parecerem tão ameaçadores quanto um teletubbie.

Verdade seja dita, os desafetos de Tepes sempre foram os comerciantes desonestos, os ladrões, os corruptos, os mentirosos, os traidores, os puxa-sacos e os invasores do seu reino, quem quer que fossem.

Tepes empalou entre 40 e 100 mil pessoas, batendo o recorde de desmatamento florestal de sua época, já que fazendo-se uma conta simples de um tronco para cada cu, deve ter faltado madeira. Vlad gostava de arranjar os troncos de diversas maneiras, sendo que a mais comum era fazer círculos concêntricos de estacas, em lugares afastados da cidade. O Vladimir pedia então que trouxessem uma mesa e que servissem almoço e jantar, pois não só apreciava o espetáculo de ver uma floresta de empalados ao seu redor, morrendo lentamente, como jamais poderia descuidar do seu ofício, perdendo tempo indo até o castelo para comer. Depois disso, os corpos eram abandonados na estaca mesmo e deixados expostos por meses, apodrecendo a céu aberto.

Certa vez, Dracula convidou um grupo de boyars para jantar em meio a uma floresta de empalados. Durante a refeição, o príncipe percebeu que um deles estava comendo com o nariz tapado, pois não conseguia suportar o aroma que se desprendia dos inúmeros corpos espetados, pois apesar de ainda não estarem em decomposição, o cheiro do sangue misturado ao conteúdo dos intestinos perfurados era muito forte. Vlad então imediatamente ordenou que o sensível boyar fosse espetado no mais alto poste que havia, para que não pudesse sentir o cheiro dos empalados plebeus que estavam abaixo dele.

Mas havia um propósito nessas brincadeiras do Vladimir, e ele sabia bem o que estava fazendo. Quando Mohammed II, o conquistador de Constantinopla (um homem que não era conhecido exatamente pela sua delicadeza), tentou invadir Tirgoviste, deu meia-volta e retornou imediatamente para casa, horrorizado com a visão de vinte mil corpos de prisioneiros turcos fincados em estacas, na entrada da cidade.

Porém, depois de um tempo no poder, um dia o príncipe se perguntou: "será que realmente esse povinho de merda já se deu por conta que eu é que mando aqui?" E resolveu testar se, de fato, a patuléia ignara já tinha entendido que era para andar na linha, senão... O que fez Tepes? Foi até a praça central da cidade e colocou um cálice de ouro perto de uma cisterna, para que os viajantes pudessem beber água. Enquanto durou seu governo, ninguém se atreveu a roubar o cálice, que permaneceu sempre na praça. Uma atitude impensável nos dias de hoje, pois não?

Deixei para o fim a melhor anedota[2] sobre o Vladimir, na minha longe-de-ser-modesta opinião. Bem no início do seu reinado ele reuniu a nobreza e os boyars que eventualmente poderiam dar algum palpite sobre seu governo - o que equivaleria, nos dias de hoje, na maravilhosa democracia em que vivemos, ao Congresso Nacional. Não só reuniu os homens mas também suas mulheres e seus filhos em um agradável jantar para comemorar a Páscoa. Vlad sabia que muitos daqueles nobres haviam participado da conspiração que resultou no assassinato do seu pai, Dracul[3], que havia reinado antes dele. E em conspirações anteriores, sempre fazendo conchavos segundo seus próprios interesses.

Dracula, depois de comer e beber, fez a todos uma pergunta: "senhores, durante as suas vidas, quantos príncipes reinaram?" Todos disseram que muitos, muitos príncipes. O mais modesto se lembrava de sete.

Vlad então gritou: "pois ESSE é o problema com vocês!"

Tepes reuniu todo mundo e empalou, na hora, os mais velhos e suas famílias. Quanto aos mais jovens e suas famílias, foram obrigados a marchar até as ruínas de um velho castelo que Vlad estava querendo reformar. Então os nobres e os boyars, agora tornados escravos, trabalharam carregando pedras até que suas roupas caíssem de seus corpos. Parece que muito poucos sobreviveram a essa empreitada.

NOTAS

[1] nobres latifundiários da época, gente à qual Vlad, por questões políticas, vez por outra devia satisfações sobre seus atos. Mas muitos boyars, muitos, foram parar na estaca assim mesmo.

[2] eu não recrimino ninguém por pensar que anedota é sinônimo de piada, mas a palavra vem do grego, "anékdotos", que significa "relato abreviado de uma particularidade histórica". Levedo é cultura.

[3] Dracul significa "O Dragão". Dracula significa "O Filho do Dragão"