NOSTRADAMUS PARA PRINCIPIANTES

Em uma noite fria e úmida, estava eu recitando partes picantes do “Cântico dos Cânticos” para minhas noviças defronte à lareira quando Kátia Flávia, minha escrava branca predileta, veio anunciar a inesperada visita do Padre Rogério.

“Oras!”, praguejei mentalmente, “Ou melhor, horas! Isso são horas de me perturbar!? Que poderá querer este radigundo?” Mas controlei meus impulsos empalatórios e fi-lo adentrar na biblioteca, deixando as noviças entretidas num inocente folguedo aracnídeo.

“Castíssimo Padre, sei que a hora é imprópria, mas tenho em mãos um documento que poderá mudar a História da Humanidade!”

Apontei uma das enormes poltronas de couro de égua para que aquele chato se sentasse e me dirigi ao armário de bebidas sem dizer nada, já muito puto da vida. Ele prosseguiu:

“Esses dias fui a um sebo no Centro Velho para adquirir algumas obras edificantes do Carlos Zéfiro. Acabei comprando umas trinta catequeses e corri ávido para a Paróquia, a fim de examiná-las. Qual não foi a minha surpresa quando, hoje, ao folhear uma das brochuras, cai um pedaço de papel com um fragmento da décima terceira centúria de Nostradamus!”

“Rogério, deixe de ser juvenil! De onde tirou essa idéia de jerico?”, eu disse, sem parar de despejar Johnny Blue em um enorme copo de cristal da Bohemia. “Além disso, Nostra só escreveu doze centúrias, meu caríssimo bigorrilho.”

“Tá, tá, tá, eu sei, eu sei; mas o que eu estou tentando dizer é que isso é material inédito! Os esotéricos vão cair de boca! Paulo Coelho vai escrever um novo livro a respeito! Padre Quevedo vai bradar, ensandecido, que isso non ecziste! Até o Ratinho vai comentar!”, disse ele, produzindo uma pequena garoa de perdigotos asquerosos enquanto falava.

“E o que EU tenho a ver com isso, rapá? Você vem aqui me perturbar a essa hora só porque achou um pedacinho de papel no meio de um livrinho de putaria?”

Ele me estendeu o trêmulo papel e disse: “É que eu não entendi patavinas do que diz aí... Sapientíssimo Padre, preciso dos vossos tirocínios!”

Peguei o papel e li:

CENTÚRIA XIII – QUADRA XV

QUANDO O GUERREIRO ARDENTE DA FLORESTA
TROMBETEAR AO FILHO DO SULTÃO DE IMBIQUE
QUE O OURO IMPURO TARDARÁ ATÉ O SOLSTÍCIO
ENTÃO VOLTARÁ A ERGUER-SE A SERPENTE DA ARCA

“Claro como a água do rio Pinheiros, meu obtuso amigo”, disse eu, devolvendo o papelucho e dando um grande gole de uísque. “Transparente, diria até.”

“Transparente? Eu jurava que Nostradamus tinha tomado um ácido, daqueles com o Pato Donald desenhado, antes de escrever esse troço!”

“Eu explico”, disse, enquanto acendia um puro.

--- to be continued