(Kudos para Scott Adams, criador do Dilbert)
Como já foi dito há um bom tempo nesse Sacro Confessionário, o Mundo Corporativo só perde em termos de bizarria para "A Fantástica Fábrica de Chocolate". Vamos mais uma vez analisar alguns aspectos desse estranho habitat:SOBRE O USO DA PALAVRA "URGENTE". As pessoas que abusam da palavra "urgente" caem na mesma armadilha que Pedro, da fábula "Pedro e o Lobo", caiu. A fábula todos conhecemos: o pastorzinho que alarmava a aldeia gritando "lobo! lobo!" e que depois morria de rir quando a caipirada saia com foices e facões para matar o lobo inexistente - até o momento em que o lobo veio mesmo, Pedro gritou mas já estava todo mundo de saco cheio daquele moleque pentelho e ninguém acudiu. Vou dar um exemplo, infelizmente verídico: chefe esbaforido chega para analista de sistemas e diz: cara, esse negócio de cálculo estequiométrico do risco-Botswana dos papéis em swap nas carteiras off-shore precisa ficar pronto prá segunda de manhã URGENTE! (sendo que é sexta-feira, 17:55) Analista, resignado, responde: tá, eu venho amanhã e resolvo isso. Na segunda, é enviado o cálculo para o cliente que precisava URGENTEMENTE daquilo. Passam duas semanas de mais absoluto silêncio da parte do cliente. Analista pergunta para chefe: ei, funcionou perfeito o cálculo? Ninguém me ligou reclamando. Chefe, distraidamente, responde: não, eles nem rodaram o troço, estão sem tempo para testar. Depois disso, toda a vez que é usada a expressão "URGENTE", analista ignora a palavra. E também não trabalha mais além das 18:00 nem vem trabalhar no final de semana, pois mente que está fazendo um curso de GTXML ou outra tecnologia inexistente.
PRAZOS. Basicamente, o trabalho de um supervisor é servir de penico para um gerente (que não tem tempo de mijar em cada funcionário um por um) e distribuir a urina segundo seus perversos e secretos critérios pessoais. Além desse papel principal, existem tarefas secundárias como controlar o andamento dos trabalhos, levar crédito pelo bom desempenho dos outros, puxar o tapete dos que ameaçam o seu cargo e estimar prazos. A respeito deste último, sempre que falam em prazos me lembro de uma micro-fábula do Millôr, cujo texto original se perdeu na minha biblioteca e não irei procurá-lo, pois da última vez que mexi lá fui ameaçado por uma gorda e feroz Traça Mutante, que rosnou quando tentei pegar uma edição bilíngüe de Blake, como quem diz: não mexa na minha comida! Mas o texto está mais ou menos intacto na minha memória e vou contá-lo do meu jeito.
O MAIS BELO CARANGUEJO DO MUNDO
Tzun-Tzé era o mais poderoso Imperador da Dinastia Ping. Além de ser um guerreiro cruel e temido, era um amante da pintura, da literatura e da música. Um dia soube que nos confins do seu vasto, vasto Império, vivia um pintor reputado como o mais hábil de todos os tempos. Tzun-Tzé chamou-o à sua Excelsa Presença.O pintor, ao ver-se frente a frente com o Imperador, jogou-se aos pés do Filho do Dragão. Tzun-Tzé, com um gesto impaciente, ordenou que erguessem o artista puxa-saco.
- Ordenei que fosses trazido à minha presença pois soube dos teus tirocínios. Quero que pintes para meu deleite o mais belo caranguejo já visto no Mundo. Pede agora o que queres em troca.
- Oh, Glorioso Falcão da Manchúria, necessito de quatro anos e vinte mil moedas de ouro, e catorze concubinas para me servirem.
- Que seja. Em quatro anos chamar-te-ei novamente.
O tempo passou. As árvores ficaram brancas, depois amarelas, verdes e enfim cinzentas, para voltarem ao branco. Isso se repetiu quatro vezes. As portas do palácio se abriram para o pintor.
- Muito bem, disse o Poderoso Senhor, deixa-me ver o Caranguejo.
- Oh, Abençoado Orvalho dos Céus, a tarefa que me pedistes exige um pouco mais de vossa paciência. Necessito de mais dois anos e dez mil moedas para concluí-la.
O Imperador, que não queria jogar pela janela o investimento já feito, concordou meio que a contragosto:
- Que seja. Em dois anos nos veremos de novo.
A lua seguiu seu claro caminho pelo céu. O sol trilhou seu percurso desde o dia mais longo do ano até o mais curto, passando pelos dois equinócios e voltando ao seu ponto de partida, para começar de novo. Isso ocorreu duas vezes. Mais uma vez o pintor se viu na presença do Imperador.
- Pintor, mostra-me o Caranguejo.
- Oh, Fabuloso e Imortal Sabre da Vontade Divina, é não sem temor que venho mais uma vez pedir-vos paciência, pois a tarefa é árdua e necessito de mais um ano e cinco mil moedas para que finalmente o Mais Belo Caranguejo do Mundo possa adornar o Palácio Dourado!
O olhar do Imperador turvou-se de raiva. Disse ele:
- Que seja. Mas eu te prometo, pintor, que se não me entregares o Caranguejo em um ano, eu mesmo separarei a tua cabeça do corpo com minha espada!
As festividades do qüinquagésimo Aniversário de Tzun-Tzé foram registradas em crônicas redigidas pelos Conselheiros Imperiais e caligrafadas em finas folhas de papel-arroz por dez mil escribas para que a memória do Imperador persistisse nas gerações futuras. Isso ocorreu uma vez.
E então o pintor foi mais uma vez convocado à Presença Imperial.
- Todos os teus prazos se esgotaram, pintor. Agora me mostra o Caranguejo.
- Caranguejo? Que caranguejo? Ah, tá, me lembrei. Tem um pincel aí?
E, naquele mesmo momento, na frente do Imperador e seus Conselheiros estupefatos, o pintor pintou o Mais Belo Caranguejo do Mundo.
LINGUAGEM. Para sobreviver no Mundo Corporativo, é condição sine qua non saber interpretar o que realmente as pessoas querem dizer quando usam o pernicioso artifício do "politicamente correto", que é a arte de mudar o nome das coisas sem mudar as coisas em si. Algo bem George Orwell, pois não? Mas Levedo, Destemido Paladino da Verdade Divina, compilou um pequeno vade-mécum do Profissional Corporativo, que inclui este brevíssimo Dicionário Prático de Sinônimos Corporativos:
- "Desafio". É como as pessoas chamam o popular "abacaxi", ou seja, uma tarefa espinhosa com um prazo impossível de cumprir. Envolve, é claro, horas extras e a possibilidade da sua mulher trocá-lo pelo entregador de pizza.
- "Downsizing", "rightsizing", "just-in-time". Cuidado ao ouvir estas palavras; quando seu superior - que não sabe falar inglês - começa a usar expressões da moda na língua de Shakespeare, pode apostar que isso significa duas coisas: demissões e mais trabalho para os que sobrarem depois da degola indiscriminada. Isso se não vier no pacote uma redução de salário e/ou extinção de benefícios.
- "Comprometimento". Significa que esperam que você ache muito mais agradável ficar todos os dias até tarde na empresa (sem remuneração) do que sair às dezoito horas para beber um merecido chope com os amigos. Ou, nos finais de semana, permanecer plantado na frente de um computador ao invés de passar o dia na praia, bebendo água de coco e olhando para os derrières tostando ao sol - com o celular desligado.