SADE, CARALHO!
A Noviça Alessandra tem tido minha atenção preferencial ultimamente, fato que me afastou dos compromissos bloguísticos, como diria Odorico Paraguassú. Mas precisamos ter sempre uma carta na manga, e a carta dessa vez é o Donatien Alphonse-François, o Marquês de Sade. Fala, rapaz!
VAI ASSIM MESMO
Há poucos seres no mundo tão libertinos quanto o cardeal de..., de que me permitirão calar o nome, já que ainda existe são e vigoroso. Sua Eminência tem um trato em Roma com uma dessas mulheres cujo ofício é fornecer aos depravados objetos necessários ao alimento de suas paixões. Cada manhã, ela lhe traz uma menina de treze anos, quatorze no máximo, mas de que monsenhor não usufrui senão deste modo incongruente de que os italianos fazem em geral suas delícias, mediante a qual a virgem, saindo das mãos da Eminência tão virgem quase quanto entrou, pode ser revendida como nova uma segunda vez a algum libertino mais convencional. A matrona, perfeitamente a par das regras do cardeal, não tendo um dia à mão o objeto a fornecer diariamente, imaginou vestir de menina um bonito rapazinho do coro da igreja do chefe dos apóstolos. Arrumaram-lhe os cabelos, um gorro, saias e todo o aparato ilusório que devia impô-lo ao santo homem de Deus. Não puderam lhe dar o que de fato lhe asseguraria uma parecença total com o sexo que imitava, mas essa circunstância não embaraçou a matrona. - Ele nunca pôs na vida a mão aí - dizia às companheiras que a ajudaram no disfarce. - É certo que visitará apenas o que neste menino é igual a todas as mulheres do universo. Nada temos a temer.
Enganava-se. Ignorava sem dúvida que um cardeal italiano tem o trato delicado demais e o gosto demasiado treinado para se equivocar em coisas semelhantes. Chega a vítima e o grande padre a imola, mas, na terceira vez:
- Per Dio Santo - brada o homem de Deus -, sono ingannato, questo bambino é ragazzo, mai non fu putana!
Verifica. Mas havendo pouco de incômodo na situação para um morador da Cidade Santa, a Eminência prosseguiu, talvez se dizendo como o camponês a quem serviram trufas por batatas: vai assim mesmo. Finda a operação, disse à senhora:
- Não a censuro pelo seu engano.
- Desculpe, monsenhor.
- Mas não, não, lhe afirmo, não a censuro. Mas quando isso ocorra de novo, não esqueça de me advertir, porque... o que eu não vi na primeira aproximação, tratarei de ver.