LA CONCHA DE TU MADRE

Não tenho nada contra os Argentinos, muito menos contra as Argentinas. Inclusive já abriguei na Paróquia Maldita algumas belas chicas às quais ensinei dois ou cinco capítulos do "Cântico dos Cânticos". Mas é difícil, principalmente para os que vivem em cima de Santa Catarina(1), compreender a antipatia dos nossos irmãozinhos do Sul para com os habitantes do Além-Prata.

Cena Um: Garopaba, SC. No camping à beira-mar, bebo chimarrão com uma família Argentina. Todos muito cultos, bem-falantes, discorrendo sobre Quevedo, Casares e vinhos tintos. Eu estava de olho na filha do Patriarca, uma morena esguia que me deixava, ahn, tenso com aquele sotaque. Isso apenas considerando a parte fonética. Sei que estávamos naquele agradável sarau quando, BEM NA FRENTE do camping estacionou um ônibus cheio de farofeiros vindos sei lá de onde. Todo mundo estava bêbado e fizeram uma sujeira tremenda na praia. O Patriarca se virou para mim e perguntou: são brasileiros ou são porcos? Num daqueles atos falhos, impensadamente respondi: pelo menos estão em seu próprio chiqueiro. Desnecessário dizer que depois disso o clima ficou um pouco agridoce, mais para "agri". E não comi a argentina! Carajo!

Cena Dois: Novamente Santa Catarina. Canasvieiras. Fim de Outubro, um pouco antes da temporada. Restaurante quase dentro do mar - e vazio. Camarão frito, um bom vinho branco gelado e uma conversa tranqüila, cheia de silêncios confortáveis, com a Noviça Edelweiss(2). Discutíamos preguiçosamente sobre a possibilidade da Salvação através do Intelecto, hipótese que sempre me pareceu um tanto jactanciosa. Numa das muitas pausas daquele falso debate, eis que estacionam DOIS ÔNIBUS DE EXCURSÃO CHEIOS DE ADOLESCENTES ARGENTINOS. Quando a porta de um deles se abriu, saltou um rapaz enrolado na bandeira da Argentina soprando uma corneta. Imediatamente o restaurante ficou LOTADO com uma cambada de criaturas extremamente barulhentas, que começaram a bater com os talheres nos pratos, exigindo comida. Chamei o garçom e pedi a conta imediatamente, antes que invocasse o Anjo Exterminador.

Cena Três: Recebi esses dias a visita do Padre Geraldo, que durante muito tempo pastoreou as Ovelhinhas lá no Rio Grande do Sul. Saímos para beber uma cachaça curtida com cana-de-açúcar no Bar do Teimoso e comer uns torresmos. Ele me contou que havia um colega nosso, Padre Irineu, responsável por uma paróquia nas Missões(3), que detestava os argentinos e sempre dava um jeito de malhar os "hermanos" nos seus sermões. Como exemplo, ele me falou que em uma de suas Pregações, o Irineu começou assim: agora vou falar da história de uma Correntina(4) safada chamada Maria Madalena. Realmente o sujeito não gostava dos Castelhanos. Pois o problema é que, sendo uma região fronteiriça, muita gente tinha pai, mãe, tio ou algum parente que era argentino, e se sentia indiretamente ofendida. Aí as reclamações foram parar no ouvido do Delegado, que mandou chamar o Padre. Aí ele disse: Padre, com todo o respeito a sua Autoridade Religiosa, o senhor não pode mais continuar falando mal dos argentinos na missa. Tem um monte de gente me aporrinhando por causa disso. Se o senhor não parar com essa mania, vou ser obrigado a lhe prender.

Bem, chegou o Domingo e o Padre Irineu subiu no púlpito para levar a Luz e a Verdade aos seus paroquianos. Ele espremeu os olhos e percebeu, lá no fundo, o Delegado, que havia excepcionalmente comparecido à missa para verificar se o Padre iria se comportar. Irineu respirou fundo e mandou ver:

- Hoje eu vou contar para vocês a história da Santa Ceia. Jesus reuniu os Apóstolos para jantar e disse pra eles que iria ser traído por um deles. Aí João perguntou: Senhor, acaso serei eu? Jesus disse: não, João, não vai ser você. Então Pedro perguntou: Senhor, acaso serei eu? E o Filho do Homem acalmou-o, dizendo: Pedro, não serás tu. Judas, então, se levantou e perguntou: Señor, ¿acaso seré yo?

NUETAS DE RODAPIÉ

(1) No sentido geográfico, seus pervertidos!

(2) Edelweiss é uma espécie de flor. No caso dela, era uma flor de fogo.

(3) Noroeste do RS, perto da fronteira com a Argentina.

(4) Natural de Corrientes.