EXORCISMO FULL-CONTACT

A todos os que invejam a minha brilhante carreira de Sacerdote Piedoso e Guardião da Luz que Ilumina os Insensatos, aviso que não é fácil. Por exemplo, há que acordar cedo - e, pior - há que conseguir permanecer acordado durante uma missa, quando não a rezamos, e, quando a rezamos, também. Há que se ter infinita paciência com as pessoas que vêm com intermináveis queixumes e ladainhas, exigindo atenção. E, acima de tudo, há a dificuldade de inculcar (inculcar, disse-o bem?) um pouco de bom-senso nas mentes mais, digamos, pétreas.

Vejam, por exemplo, o caso do Jardel. Ele trabalhava descarregando carne de boi e era alcoólatra. Chegava em casa e batia em quem estivesse na sua frente. Claro que sua atitude pouco polida acabou lhe causando problemas e ele foi até à Igreja, e ali percebeu o Grande Pecador que era, e, sendo convertido à Fé do Senhor, foi aconselhado pelos diáconos.

Quando ele começou a Vida Cristã, além de receber a orientação de não cobrir de porrada a família, ganhou um livrinho com algumas regras da Congregação em relação à Sagrada Cerimônia.

Tenho certeza que ele jamais leu esse livro.

Uma das coisas que estavam escritas no livro era a seguinte: "se, em um Culto, uma pessoa é possuída pelo demônio, deve-se evitar qualquer contato físico com esta pessoa e aguardar que o Padre faça o Rito de Expulsão".

Nessa mesma época da conversão do Jardel, eu era o Pároco da Igreja, e houve um surto de possessões demoníacas. Todo dia alguém era possuído pelo Inimigo. Porém uma coisa me chamou a atenção: todas as pessoas endemoniadas eram mulheres. Elas caíam no chão e falavam hjdfasfyiiiiieeeeeewr! Eu me perguntava: "então o Pé-de-Cabra quer se apossar do corpo e da mente dessas pessoas só para ficar babando, gritando e esperneando no chão?" Ficou claro desde o princípio que aquilo era apenas encenação. Mas, como tinha de cumprir o meu papel de Líder da Manada e Legítimo Representante Terreno da Sabedoria Fodelona de DEUS, erguia a minha mão e dizia "Sai!", e outras palavras consideradas exorcísticas*, e a mulher se levantava, já recomposta, e me agradecia, dizendo "saiu. saiu!"

Num dia de culto, após uma misteriosa e abençoada entressafra de endemoniadas, o Jardel foi na Igreja e se sentou lá no fundão. Eu estava inspirado nesse dia, e comecei o sermão com trechos picantes do "Cântico dos Cânticos", só para quebrar o gelo e animar o pessoal. Quando, para minha surpresa, inesperadamente, uma mulher caiu no chão e começou a falar a língua do pê, só que de outro planeta.

Como detesto ser interrompido, perdi completamente o rumo do meu sermão e, com um profundo tédio, me preparei para o teatrinho do suposto exorcismo que teria de fazer, não sem antes consultar um "post-it" com as Palavras Rituais, que eu tinha grudado no púlpito.

Eu já ia começar o blá-blá-blá quando o Jardel, a quem tinham contado que o capeta era o responsável pelas merdas que aconteciam na sua vida, e que, vendo a mulher esperneando, julgou que ela, realmente, naquele momento, representava o Cão, veio correndo do fundo e deu um violento pontapé nas suas costelas, antes de ser contido pelos diáconos.

No momento em que levou o pontapé, a mulher deu um berro: "SAIU! SAIU!", declarando que o demônio havia sido expulso.

Incrivelmente, depois disso, nunca mais houve nenhum caso de possessão demoníaca na Paróquia e a Seara do Senhor mais uma vez conheceu a Paz.

(*) Odorico Paraguassu rules!