ORIDES FONTELA (1940-1998)

Orides nasceu em São João da Boa Vista, interior de SP. Foi professora primária e bibliotecária. Ela era uma mulher muito nervosa, de temperamento difícil e imprevisível. Só para citar um dos inúmeros barracos armados pela Orides: certa vez ela surtou, desceu do apartamento onde morava, foi para a frente da casa de uma vizinha (que era uma grande amiga dela) e começou, sem motivo aparente, a berrar pros passantes que ali morava uma prostituta. Ela tentou o suicídio algumas vezes, sofria de depressão e era chegada num copo. Quando morreu num sanatório em Campos do Jordão, aos 58 anos, aparentava ter pelo menos vinte anos a mais. Vamos ver o que ela escreveu.

EPÍGRAFE

A um passo
do pássaro
res
piro.

MURMÚRIO

O murmúrio não cessa. Nunca a
fonte
deixará de cantar
oculta

e oculto mesmo
o canto
soterrado em cansaço
hábito e olvido

e tudo oculto sob árida
lápide
sob o contínuo deslizar
das formas

e tudo
oculto
mas água
sempre

pulsação
viva
centrando
o
tempo.

VESPER

A estrela da tarde está
madura
e sem nenhum perfume.

A estrela da tarde é
infecunda
e altíssima:

depois dela só há
o silêncio

CDA (imitado)

Ó vida, triste vida!
Se eu me chamasse Aparecida
dava na mesma.