ORLANDO VILLAS BÔAS (1914-)

Esse é um sujeito com quem eu gostaria de dividir uma mesa de bar. Orlando é um dos mais famosos indianistas do Brasil, sendo indicado para o prêmio Nobel da Paz em 1976 pelo seu trabalho de preservação da cultura indígena na Amazônia. Creiam, esse cara ficou mais de quarenta anos no meio do mato! Além do seu trabalho inestimável, esse cara tem histórias a contar. E, pode apostar, são muitas e bizarras. Vamos ouvir o Orlando:

O BOTOCUDO E AS UVAS

Fizemos um grande banquete em homenagem ao marechal Rondon, com muitos convidados de fora, inclusive jornalistas e pessoas de televisão. Mas o mais interessante desse banquete foi uma apresentadora de TV, muito bonitinha, que ficou encabulada com os índios botocudos e com aquele beiço enorme que eles têm(*).

A sobremesa do banquete eram uvas, e ela pegava cada uvinha e botava assim no beiço do índio, pra ele comer. Ela achava aquilo muito interessante(**) mas o índio cuspia a uva fora e gritava "Baikan! Baikan!" Ela perguntou: "O que ele está dizendo?" Aí traduziram: "Azedo! Azedo!" Foi pior, ela pegava as uvas e insistia: "Não é azedo não, é doce! Docinho, olha só..." Chupava uma saborosamente, pegava outra e botava na boca do índio. E o índio desesperado: "Baikan! Baikan!" Até que eu falei: "Olha, eles estão com vergonha de traduzir pra você, mas o que ele está gritando é 'Me cago! Me cago!’” É que os botocudos tinham comido uvas antes e tinha dado disenteria na tribo inteira.

(*) reparem na pudicícia da moça
(**) hein?