DUAS LARANJAS

Tem gente que reclama de tudo. Do salário, da mãe da namorada, do dogão que veio com pouca batata-palha, e por aí vai. A moda agora é reclamar do horário de propaganda política. Mas não é tão ruim assim, pelo menos ele obriga você a procurar algo que fazer.

Eu não tenho TV a cabo. Só pagaria para assistir TV a cabo se metade dos 254300 canais que eles oferecem passassem apenas desenho animado, e a outra metade fosse da Penthouse. Quando a politicagem começou a pipocar na telinha, dediquei alguns minutos a olhar para aquelas pessoas. Achei o sorriso do Serra muito animador, e a Doutora Havanir - disparado - a mulher mais sexy que já participou de uma eleição.

Porém, como tudo o que é repetitivo enjoa, logo comecei a pesquisar minha vastíssima coleção de CDs e DVDs para distrair-me nos horários em que o pessoalzinho ficava de bla-bla-bla na TV.

Um CD.

"Orange" é uma das faixas do CD "AURA", de Miles Davis. Apesar de ter o nome de Davis, o material foi composto por um trompetista chamado Palle Mikkelborg. Ele trabalhou de maneira bastante mecânica na composição dos temas, mas deixou espaço para muito improviso. Todas as músicas receberam nomes de cores. Em "Orange" temos um solo do guitarrista John McLaughlin. Um solo áspero, quebrado, rude, esquisito. Não à toa, Jeff Beck uma vez declarou que caras como McLaughlin, além de deixá-lo puto, ainda por cima gravavam discos.

Passemos agora para um DVD.

"The Clockwork Orange" ("Laranja Mecânica"), de 1971, é um filme interessante não só pelos méritos próprios, mas pelas muitas histórias paralelas que o acompanham. O filme chegou ao Brasil com uns 10 anos de atraso - lembrem-se, tempos de ditadura militar. A Censura implicou com algumas cenas em que aparecia gente pelada. Pontos pretos de tinta foram aplicados à película nas cenas em que apareciam partes corporais julgadas indecentes dos atores, uma atitude que teve como resultado um interesse maior ainda pelo filme. E, como tudo o que a Censura faz, gerou uma infinidade de piadas.

"Laranja Mecânica" foi baseado no livro de Anthony Burgess, que é um dos maiores prosadores da língua inglesa. Talvez não seria exagero compará-lo a Swift, mas isso poderia ofender pessoas mais sensíveis. Burgess não conseguiu escrever um único livro que fosse chato. Em "Laranja Mecânica", como a história é sobre delinqüentes em algum ponto do futuro, Anthony teve que pedir ajuda a uma especialista em línguas para criar todo um arsenal de gírias futuristas. Você começa a ler o livro e não entende picas, até prestar atenção na página de rosto, que avisa: "o glossário está no final do livro"

Se não me engano, "Laranja Mecânica" foi um dos primeiros filmes com trilha sonora executada em sintetizador. Um Moog, daqueles antigos, verdadeiro trambolho, tocado por um cara chamado Walter Carlos. Pois esse tal Walter decidiu, depois de gravar a trilha sonora do filme e receber uma grana, que não queria mais ser homem (desconfio que ele já estava pensando nisso faz tempo). Mandou cortar o piu-piu fora e trocou o nome para Wendy Carlos. O sujeito é tão decidido a ser mulher que na página oficial dele só há referência a ele como "she". Meigo.

Mas o filme é magnífico. Conta a estória de um jovem facínora chamado Alexander DeLarge, em um futuro repleto de violência, políticos sem um pingo de honestidade, e adolescentes sem perspectiva de vida. Sounds Familiar?