UM JIPE NA MÃO E NADA NA CABEÇA
Existe um certo tipo de pessoa cuja principal finalidade neste mundo é gerar caos. São gente boa, aparentemente normais, conversam com civilidade, mas não podem ficar um dia sequer sem sacanear alguém. Acho que isso é uma síndrome e deveria ser estudada pelas psicólogas. Aliás, por que será que as psicólogas normalmente são boazudas? Certa vez fui numa entrevista para ver se conseguia emprego e a psicóloga do RH, uma morena com seios enormes, surge na minha frente com um decote mais profundo que a crise da Argentina. Ela parecia duas bolas de sorvete espremidas numa só casquinha. Aquele decote atraía meus olhos como novelos de lã atraem gatinhos. Perdi parcialmente o contato com a realidade, na contemplação daquelas imensas protuberâncias mamárias. Não conseguia compreender direito o que ela me perguntava tampouco responder com uma frase completa, e provavelmente por isso recebi uma avaliação de "disperso" e não consegui o emprego. Mas, tergiverso.
Estamos no ano de 1959.
O Odone sofria dessa síndrome de sacanear os outros. Estava sempre pensando nisso. Uma vez conseguiu o telefone de um notório conquistador da cidade onde morava. Muito habilidoso com a voz, ligou para o sujeito fazendo-se passar por mulher, e querendo marcar um encontro. Ele se descreveu fisicamente para o Don Juan como sendo uma irmã gêmea da Angelina Jolie, se ela fosse nascida na época. O cara, maravilhado, disse que o encontro podia ser em qualquer dia, qualquer hora. A "Angelina" então marcou ao meio-dia, na frente de um asilo para cegos, onde não havia árvore num raio de duzentos metros, tampouco qualquer marquise ou abrigo. Era um verão escaldante, um dos piores que já se tinha visto. Ele ainda arrematou, fazendo uma voz melíflua: "Vá vestido com astracã, acho tão chique homem de astracã(*)!"
Pois o tal conquistador se postou na frente do asilo, no dia e hora combinados. Trajava astracã, camisa e gravata. O sol estava de rachar, e à medida que o tempo ia passando, as gotas de suor se multiplicavam na sua testa. E nada da "mulher" aparecer. E nenhuma árvore, nenhuma sombra onde se abrigar. Uma da tarde. Nada da beldade, e a camisa já estava encharcada de suor fazia tempo(**). Aí o Odone passou pela frente do asilo, só para ver se o golpe tinha surtido efeito. Apenas deu uma olhadinha para o otário e passou reto, gargalhando.
Pois um dia Odone arrumou um jipe, caindo aos pedaços. O jipe não tinha uma cor bem definida, era algo entre verde e ferrugem; mas bem ou mal andava, o que era o mais importante.
Ele tinha esse amigo, um tal de Toninho Vagareza, que também adorava sacanear os outros. "Toninho" era um armário de três portas, todas abertas. Um cara totalmente pacífico, mesmo porque ninguém seria louco de sair no braço com ele sem ter um ou dois exércitos de reforço.
Foi Odone quem fez a proposta pro Toninho, proposta essa imediatamente aceita.
O Toninho pegou uma velha espingarda do seu pai, que nem disparava mais. Entrou no jipe e foram para o centro da cidade. Chegaram na frente de uma loja com bastante movimento e jogaram o carro para cima da calçada, bem à frente de um sujeito que ia passando. Saltam Odone e Toninho - com a espingarda -, e Odone começa a berrar, para estupefação do anônimo pedestre:
- FOI ELE, ANTÔNIO! FOI ELE QUE DEFLOROU A TUA IRMÃ! É ELE MESMO!
Então o armário de três portas apontava a espingarda para o transeunte já paralisado pelo medo. Aí eles ouviam de tudo: lamúrias, confissões inesperadas, biografias condensadas, declarações de amor à mãe, ou apenas uivos. Depois da "performance", saíam rindo para tomar uma cerveja.
Repetiram a brincadeira umas três vezes até o dia em que o jipe do Odone quebrou de vez. Os comerciantes do centro da cidade deram graças a Deus.
(*) o astracã é um tecido composto de lã trançada, para climas MUITO frios
(**) na maioria das espécies animais, os machos fazem coisas inacreditavelmente estúpidas para conseguirem uma trepada; o homem faz parte dessa maioria