SEIS VELAS PARA VAN HALEN

(Esta é a continuação do texto “O Dia em que Saturno Piscou para Júpiter”)

Os amigos é que me salvam do pior. Acho que já estaria na sarjeta se não fossem essas criaturas que, inexplicavelmente, se apegam à minha pessoa. E o mais intrigante é que não faço nenhum esforço para agradar. Simplesmente escuto o que elas têm a dizer, depois falo alguma coisa vagamente positiva e pronto. Já simpatizam comigo. Não que eu ache a vida grande coisa, ou seja um filantropo - na verdade, encaro os outros como pneus de proteção nas curvas de uma pista de corrida: se tudo vai bem, pouco me importa se eles estão ou não lá. Mas se a gente erra uma manobra, agradeço aos céus que eles existem. Os sacanas impedem que eu arrebente a cabeça em um muro.

Liguei pro Sérgio e expliquei a situação: tinha recém saído da casa dos meus velhos e precisava de um canto onde dormir. Ele prontamente ofereceu o sofá da sala, e claro que aceitei. A noite ia mordendo devagarinho o crepúsculo \n'; document.write(barra); } } changePage();
. Fui caminhando até o apartamento onde ele morava com a mãe. O céu misturava cores tão bonitas que tive de parar. Na calçada, olhando para cima, enquanto o rebanho usual de trabalhadores formigava ao meu redor, consegui me sentir bem pela primeira vez desde que fechei a porta da casa dos meus pais.

Este Sérgio era uma figura. Tinha mais ou menos a minha idade, e estava terminando a faculdade. Estatística. Algo muito, mas muito chato. A vantagem é que ele nunca ousava comentar nada do curso com nenhum amigo: não havia ninguém disposto a ouvir sobre desvio padrão e outras merdas desse tipo. Ele, como já disse, morava com a mãe. Ela era separada do pai dele, um sujeito excessivamente tímido, daqueles que nem se nota a presença, andando com passinhos suaves, falando em voz baixa coisas irrelevantes, tentando passar despercebido. Talvez fosse um grande cara, mas a impressão que ficava é que ele era um bostalhão.

Já a mãe do Sérgio era uma mulher vigorosa, extrovertida. Trabalhava com vendedora, e trabalhava duro. Nove horas por dia, convencendo o pessoal a comprar livros - o que não é tarefa fácil. Além disso, era cozinheira de mão cheia; transformava até uma simples polenta num banquete.

Os dois moravam num apartamento de um quarto, perto do centro da cidade. Cheguei lá antes da noite cair por completo, e subi até o décimo andar. Fui recebido com festa:

- Aí, malandro, qual foi a merda?

Fiquei meio sem jeito e respondi qualquer coisa, tipo "enchi o saco de ficar lá em casa". O Sérgio viu então a guitarra.

- Ô rapaz! Onde tu arranjou essa tábua de cortar carne? Cruzes, pesa meia tonelada!

E aí ele riu. Tudo bem. Me senti mais à vontade.

A mãe dele ainda não tinha chegado do trampo. O Sérgio também tinha uma guitarra, caindo aos pedaços, e - mais importante que isso - tinha também um amplificador. De modo que, imediatamente, ligamos a minha guitarra no amplificador e comecei a tocar. Hum! Bem melhor do que usar o 3 em 1 lá de casa!

Depois ele experimentou a guitarra, reclamou muito do peso dela (de fato, era necessário algum preparo físico para segurar o instrumento), mas gostou do timbre. Depois, pegou a guitarra dele e plugou no amplificador. Ficamos tocando até a mãe dele chegar.


Foi tudo acertado entre nós. Era um esquema simples: eu dormia na sala, BEM cedo, sem fazer ruído nenhum nem acender luz alguma. Pela manhã, preparava o café para todos nós. Comíamos em alegre falatório, comentando tudo quanto era assunto. Depois Sérgio e sua Mama saíam, e eu limpava a casa toda (o que era fácil, pois o apartamento era minúsculo). Depois disso, tinha o dia livre para fazer o que bem entendesse. Minha sorte é que o Sérgio tinha uma porção de discos bons e quase sempre eu ficava de papo pro ar, ouvindo música e tocando guitarra. Quando batia o tédio, saía para caminhar.

Minha grana estava se evaporando com muita rapidez, portanto tinha que controlar os gastos. Não estava com nenhuma vontade de procurar emprego, pelo menos durante um tempo. Na esquina tinha aquela banquinha de jornal onde eu sempre parava para ler os jornais e folhear as revistas especializadas em guitarra. Não tinha dinheiro para comprar nada, e então ficava lendo até que o jornaleiro me enxotava. Não era um sujeito malvado, apenas desconfiado.

Num dia, cheguei na banca e havia uma revista de literatura com o Nietzsche na capa. Falei em voz alta: "Frederico! Há quanto tempo!" O jornaleiro, sempre com um pé atrás, me perguntou: "tu conhece Nietzsche?"

Agora, um parêntese. Antes de entrar pro quartel, no segundo grau, namorei uma menina maluquíssima. Ela tinha seios enormes, e eu passava o tempo todo agarrando aquelas tetas. Durante as aulas, na lanchonete, no ônibus, no recreio, andando na rua. Ela tinha sempre um livro na mão, era uma intelectual. Foi ela que me explicou a teoria do super-homem do Nietzsche. O homem é uma corda estendida entre o animal e o super-homem. Grande merda. Mas acabei memorizando algumas idéias daquele alemão doido.

Portanto, respondi ao jornaleiro: "O homem é uma corda estendida entre o animal e o super-homem". Nunca imaginei o impacto que isso provocaria nele. Imediatamente me considerou uma pessoa ilustrada e principiou a discutir animadamente sobre filosofia. Eu não tinha condições de conversar sobre isso, então desviei do assunto e ele se aquietou um pouco. Porém, a partir deste dia, eu passei a ter livre acesso para ler o que quisesse na banquinha. Beleza.

Um dos problemas na guitarra do Sérgio é que, quando a gente levantava muito o volume, ela "apitava". Lendo as revistas sobre guitarra, eu fiquei sabendo que o Eddie Van Halen tinha tido o mesmo problema com alguns dos seus primeiros instrumentos, e resolveu a questão mergulhando os captadores em parafina líquida.

Outro parêntese. Um captador é uma bobina que envolve seis ímãs, responsável por captar a vibração das cordas de uma guitarra e transformar esta vibração numa corrente elétrica, que é amplificada e se torna audível. Trata-se de uma peça delicada, que normalmente possui 13000 voltas de fio de cobre da espessura de um fio de cabelo.

Então eu sabia como consertar a guitarra do Sérgio. Falei para ele e, a princípio, ficou hesitante. "Mas como vamos derreter a parafina?" Respondi que bastava pegar uma panela bem grande com água fervendo, colocar uma panela menor boiando por cima e encher de velas. "Tudo bem, mas o captador vai ficar branco! E a minha guitarra é preta!" Bem, um argumento difícil de rebater - mas uma espécie de musa inspiradora sorriu para mim naquele momento e respondi, de pronto: "a gente compra vela preta numa casa de artigos prá macumba!"

Resolvido esse detalhe, fomos até o centro velho, onde tinha um monte de lojas especializadas em bruxaria e macumba. Numa delas, havia uma estátua em tamanho natural do diabo - apesar de eu não saber quanto ele tem de altura. Era como se fosse uma pessoa, só que era totalmente vermelho, segurava um tridente e tinha chifrezinhos. Decidimos entrar nessa loja. Havia um longo balcão e uma moça muito entediada, lendo "Capricho". Eu falei: "precisamos de uma meia-dúzia de velas pretas." A mulher foi até uma gaveta, pegou um pacote das tais velas e colocou em cima do balcão. Aí falou: "Se vocês vão fazer trabalho forte, é melhor já levar papel celofane, fita vermelha e bandeja de prata". Eu olhei pro Sérgio e ele desviou o olhar, para não rir. Disse que só as velas já estava bom, obrigado.

Voltamos para casa. Coloquei um panelão com água para ferver. Enquanto isso, o Sérgio desparafusava os dois captadores da guitarra. Pus as velas numa panelinha bem velha e falei, solenemente: "Oh, poderoso Príncipe das Trevas, aceitai este sacrifício e transformai as notas que sairão dos captadores em notas dignas de Van Halen!" Quando derreteu tudo, apaguei o fogo e mergulhamos os captadores na negra parafina liquefeita. Depois os retiramos e esperamos secar. Quando colocamos de volta na guitarra, percebemos que um deles não funcionava mais (e nunca mais funcionaria, por sinal). O outro, porém, tinha ficado perfeito. Agora, podíamos tocar em volumes insanos sem problema algum.

Ou quase. O que eu não sabia era que a panelinha velha que usei para derreter as velas era uma panela de estimação da mãe do Sérgio. Quando ela chegou do trampo e viu sua querida panelinha cheia de parafina preta, teve um troço. Começou a falar descontroladamente, naquele timbre agudo e irritante que as mulheres usam quando querem foder com a nossa paciência. Ela xingou tanto o filho dela quanto eu. Não podia falar nada, afinal estava lá devido à generosidade deles. Mas o Sérgio ficou puto com ela. Nunca tinha visto ele brabo, e não foi muito agradável o espetáculo. Ele agarrou com força os braços da mãe e gritou de um jeito que poderia ser ouvido em Madagascar: "EU COMPRO UMA PORRA DE PANELA NOVA PRA TI MAS CALA A BOCA! AGORA!"

Merda, não conseguia me livrar de confusão e gente perturbada.

O clima, obviamente, ficou uma droga. O Sérgio chegou pro meu lado, mais calmo, e disse: "olha, precisamos conversar". Só olhei para ele e perguntei: "quanto tempo eu tenho?" Aí ele sorriu, meio sem jeito, e falou: "tem que ser logo; a casa, no final das contas, é dela".

Naquela noite, saí para andar sozinho e pensar um pouco na vida. Decidi gastar uma parte do meu dinheiro com algumas cervejas e vodka. Fiquei ligeiramente bêbado. Andava pelas ruas desertas, olhando o céu e tentando imaginar o que viria pela frente. Eu sabia que teria de procurar emprego e achar um teto onde morar em paz. Mas tudo isso, de certa forma, perdia um pouco da urgência, pois estava embrulhado num suave torpor alcoólico. Como era verão, achei um banco em uma praça e dormi feliz, olhando as estrelas e cantando baixinho "My Way".