EU LEIO GENTE MORTA... O TEMPO TODO

Tem uma amiga minha que costuma ler livros psicografados, ou seja, livros supostamente ditados para médiuns por espíritos desencarnados. Li algumas páginas destas obras sobrenaturais, e confesso que não me impressionei nem um pouco. Não consegui identificar qualquer variação no estilo monocórdio e edulcorado que espíritos distintos teimavam em usar. Me abstive de comentar esse fato com a minha amiga, pois como dizia Pirandello, "assim é, se lhe parece".
Esses dias examinei um artigo sobre uma editora espírita que já havia publicado vários livros psicografados. Num deles, uma coletânea de contos, figurava o nome de Gilberto Freyre. O trecho pinçado pelo autor do artigo era pouco menos do que um meloso rascunho de novela mexicana. Absolutamente diferente, tanto no estilo quanto na temática, das obras que Freyre escrevia, quando vivo: desencarnado, ele parecia roteirista de "Marissol". O artigo termina concluindo que a morte faz muito mal ao estilo de um escritor.
O próprio Kardec, no Livro dos Espíritos, alerta que, assim como no mundo dos vivos, no mundo dos espíritos também existem vigaristas. Talvez esses livros psicografados devessem vir com um selo assim: "Allan Kardec adverte: o espírito que ditou este livro pode ser um farsante".