ESTRANHOS TIPOS DE DIVERSÃO
Li uma reportagem sobre o que talvez seja o segundo esporte mais perigoso do mundo, depois de fazer reportagem em favela: mergulhar em cavernas submersas. Não consegui, sinceramente, atinar no que leva um sujeito a fazer isso. Se enfiar em buracos estreitos debaixo d'água (buracos geológicos, seus tarados!), nadando com uma lanterna - não há luz natural -, onde qualquer movimento mais desastrado levanta o lodo acumulado no chão e reduz a visibilidade a zero. Centenas de pessoas já morreram, perdidas nos túneis que se multiplicam nas cavernas submersas.
Confesso que tenho uma certa claustrofobia; não gosto nem de elevador. Esse "esporte" estaria fora de cogitação, no meu caso. Fiquei espantado quando vi uma foto da reportagem, um sujeito praticamente entalado em uma fresta a 30 metros de profundidade e que SORRI para a câmera! Era um dos maiores especialistas nesse tipo de mergulho, e declarou que sentiu a morte de perto dezenas de vezes. Numa das cavernas em que ele entrou, o cara encontrou o corpo de outro mergulhador que não conseguiu sair de lá. Era um rapaz de 27 anos que, percebendo que iria morrer pela falta de ar, puxou uma espécie de bloco de anotações e deixou um recado para a família.
A longo prazo, todos estaremos mortos. Mas não vejo nenhum motivo para procurar a morte. Ela virá, não se preocupe.
Falemos da proximidade da morte. Mas da proximidade acidental, não a proposital.
Um colega meu já passou por uma experiência, no mínimo, bizarra. Velejador, ele ia de Santos até Parati sozinho, no seu barco. Ligou o piloto automático e foi fazer uma caipirinha. Na volta, como o convés estava molhado, escorregou e caiu no mar. Não me perguntem como ele conseguiu isso; só sei que aconteceu mesmo. Aí o veleiro foi embora, sem ninguém a bordo. O cara teve que nadar seis horas sem parar para atingir a terra firme. Eu perguntei para ele se tinha tanto preparo físico assim. "Que nada!" - disse ele - "Eu estava era me cagando de medo de morrer!"
Por incrível que pareça, o veleiro chegou a Parati sozinho. Os pescadores perceberam que tinha algo de errado, subiram no barco e o atracaram. Deram uma geral no interior e acharam a agenda do meu colega. Ligaram pra casa dele, ele foi lá e trouxe o barco de volta. Depois dessa presepada toda, ele parou de jogar na Sena. Diz que, provavelmente, seu estoque de sorte acabou pro resto da vida.
Já peguei uma tempestade no meio da lagoa dos patos, no Rio Grande do Sul. Estávamos num veleiro, também. Se você olhar no mapa, vai ver que essa lagoa - que na verdade é uma laguna, pois tem saída para o mar - é imensa. Quando se está no meio dela, não se enxerga coisa alguma exceto água. Foi ali, exatamente no centro daquela imensa extensão de água, que desabou uma tempestade terrível. O veleiro era um O'day 27, barco pequeno de 27 pés, o que dá mais ou menos 8 metros. A tripulação era de três pessoas, a vodka já havia acabado e fazia um frio desgraçado. Parecia que estávamos montando um touro mecânico; as ondas cobriam o convés. Numa situação destas, se acontece de o barco afundar todo mundo morre, mesmo com colete salva-vidas, mesmo sendo o campeão mundial de natação; as ondas cobrem a cabeça com tanta freqüência que o sujeito não tem como respirar.
Pensei: "pode ser que eu morra. Mas que bosta, como é que me coloquei nessa situação?! Eu deveria era estar sentado na sala, assistindo um filme e bebendo um conhaque!"
Curiosamente, frente a uma possibilidade concretíssima de acabar morto, minha reação foi rir descontroladamente daquela situação absurda. Meus dois colegas me olhavam como se tivesse perdido o juízo.
Bem, lutamos contra a tempestade a noite toda. Não podíamos atracar porque se o veleiro acaso encalhasse, jogado pelas ondas, aí é que iríamos nos fuder direitinho. O litoral oposto da lagoa dos patos - que fica do lado do mar -, justamente para onde o vento estava soprando, é uma extensíssima faixa de terra desabitada. Então, não pregamos o olho a noite toda. Programaço, hein?