GIOVANNI BOCCACCIO

O autor do "Decameron" viveu entre 1313 e 1375. Era de Firenze, na Itália, e sobreviveu à peste negra - que ceifou um terço das almas na Europa, lá pelos idos de 1348. O Decameron são cem narrativas curtas, onde o tema recorrente é a implantação de cornos no(a) parceiro(a). Mas há muito mais do que isso: Boccaccio mudava de estilo com uma facilidade impressionante. O "Decameron" é múltiplo, espantoso, e é uma delícia. Não me canso de percorrer as suas páginas. Fala aí, Giovanni!

EXPLICAÇÃO PRELIMINAR: as narrativas são relatadas por dez pessoas que fugiram da peste negra e refugiaram-se num castelo. Estas pessoas elegiam um rei ou uma rainha que presidia seus saraus. Nesta narrativa, especificamente, reaparecem as figuras de Bruno, Calandrino e Buffalmacco, todos pintores. Calandrino sempre é sacaneado pelos outros, pois é muito ingênuo. Tessa é sua mulher. Mestre Simão é um curandeiro picareta.

TERCEIRA NOVELA

Tendo Elisa terminado a sua novela, todas as mulheres do grupo agradeceram a Deus pelo fato de a jovem freira Isabetta ter-se livrado, com uma saída agradável, das garras de suas invejosas companheiras. Depois, ordenou a rainha a Filóstrato que continuasse. E Filóstrato, sem aguardar nova ordem, principiou:
- Lindíssimas mulheres, aquele juiz marquesão, de maus costumes, do qual lhes falei ontem, me impediu de lhes contar um episódio de Calandrino que eu estava prestes a lhes narrar. Como, entretanto, tudo quanto se afirma de Calandrino não faz mais do que aumentar a alegria, não obstante já se ter discorrido muito a respeito dele, ou de seus companheiros, mesmo assim quero contar-lhes a novela que ontem eu tinha em mente, e que na minha mente ficou.
Foi claramente demonstrado, em novelas precedentes, quem era Calandrino, e quem eram igualmente as demais personagens, a respeito das quais vou discorrer na presente novela; em tais circunstâncias, sem mais circunlóquios, afirmo-lhes que aconteceu morrer uma tia de Calandrino. A tia deixou-lhe 200 liras, em pequenas moedas divisionárias. Por isso, Calandrino pôs-se a dizer que queria adquirir um sítio; além do mais, abriu conta em todas as mercearias de Florença, como se possuísse 10000 florins de ouro para gastar; porém, todas as negociações eram desfeitas, logo que se chegava a falar do preço pedido pelo sítio que ele queria comprar. Brulo e Buffalmacco conheciam estas circunstâncias; e muitas vezes lhe deram conselhos, afirmando que ele procederia muito melhor se desfrutasse aquele dinheiro, junto com eles, em lugar de procurar adquirir terra, como se devesse fazer bolinhas com ela; entretanto, não só não conseguiram levar Calandrino a pensar deste modo, como ainda nem mesmo chegaram a convencê-lo a pagar-lhes ainda que fosse uma só refeição.
Por isso, Bruno e Buffalmacco queixaram-se bastante, em certo dia; neste ponto, entretanto, surgiu um colega deles, um tal de Nello que também era pintor; os três, então, resolveram encontrar o meio de pôr a mão no dinheiro de Calandrino; não perderam demasiado tempo em pensar; logo combinaram, entre si, o que cada um faria; e, na manhã seguinte, puseram-se os três de tocaia, para apanhar Calandrino logo que este deixasse sua casa; Calandrino ainda não andara uma curta distância, e já o pintor Nello foi ao encontro dele, e disse-lhe:
- Bom,dia, Calandrino!
Calandrino, em resposta, desejou-lhe que Deus lhe desse um bom dia e um bom ano. Em seguida, Nello, detendo-se um pouco, começou a olhar para ele em pleno rosto. A isto, perguntou Calandrino:
- Que está você olhando?
E Nello esclareceu:
- Será que você sentiu algo, esta noite? Em todo caso, você não parece já o mesmo.
Calandrino começou logo a descrer; e disse:
- Pobre de mim! Que indagação é esta? Que lhe parece que eu tenho?
Nello explicou:
- Meu Deus! Não foi por esta razão que lhe fiz a pergunta; porém o certo é que você, hoje, parece-me completamente mudado. Pode ser outra coisa.
E deixou que Calandrino fosse embora. Calandrino ficou cheio de desconfiança, pois não se sentia mal nem sofria de nada neste mundo; porém, foi em frente. Contudo, Buffalmacco, que estava um tanto mais além, vendo-o desligar-se de Nello, foi ao seu encontro; cumprimentou-o; e indagou-lhe se, por acaso, estava sentindo-se mal. Calandrino retrucou-lhe:
- Não o sei. Há pouco Nello me disse que eu lhe parecia completamente mudado. Afinal, será que eu estou padecendo de alguma coisa?
Buffalmacco confirmou:
- Sim. Pode ser que sofra de um nonada; e você supõe que isto seja pouca coisa? Sabe o que você me parece? Meio morto.
Calandrino tinha já a impressão de estar com febre. E eis que surge Bruno; e este, antes de falar alguma coisa, foi exclamando:
- Calandrino! Que cara é esta? Até parece que você está morto! Que é que você tem?
Após ter escutado cada um dos três amigos falar daquela maneira, Calandrino ficou inteiramente convencido de que realmente deveria estar doente; e, inteiramente amedrontado, perguntou-lhe:
- Que acha que devo fazer?
Bruno aconselhou:
- Penso que deve retornar a casa e ir logo para a cama, ordenando que o cubram bem; convém que mande a sua urina ao Mestre Simão, que é uma nossa notabilidade, como você bem sabe. Vai ele examinar o material. Em seguida, dir-lhe-á o que você fará; iremos com você; e, se preciso for fazer alguma coisa, faremos.
Nello reuniu-se ao grupo; e todos, com Calandrino, voltaram à casa dele. Calandrino foi para seu quarto, completamente abatido; e, à esposa, disse:
- Venha comigo, e trate de me cobrir, pois estou sentindo-me muito mal.
Após ter-se acomodado na cama, Calandrino mandou, por uma sua empregadinha, a amostra de urina ao Mestre Simão; este médico possuía seu estabelecimento, naquele tempo, no Mercado Velho, sob a insígnia do melão.
E disse Bruno aos seus colegas:
- Fiquem vocês aqui com ele; desejo ir conhecer a opinião do médico; se necessário, farei com que ele venha até aqui.
Calandrino rogou, então:
- Pelo amor de Deus! meu caro colega! Vá perguntar; em seguida, queira vir informar-me a situação em que me acho, pois estou sentindo alguma coisa esquisita, aqui dentro.
Partiu Bruno para a casa do Mestre Simão, ali chegando antes que aparecesse a empregadinha que saía com a amostra da urina; deste modo teve tempo de acertar tudo com o Mestre Simão. Quando a empregadinha chegou, o mestre examinou a urina; e falou à jovem:
- Vá para casa; diga a Calandrino que ele deve ficar bem aquecido; irei visitá-lo sem demora; então, a ele mesmo, direi o que ele tem e o que deverá fazer.
Voltou a empregadinha para casa e deu o recado a Calandrino. Passado pouco tempo, chegaram o Mestre Simão e Bruno. O médico sentou-se à beira da cama; procurou tomar o pulso do doente; depois de certo tempo, solicitou a presença da esposa de Calandrino, e disse:
- Escute aqui, Calandrino: para lhe falar como a um amigo, devo dizer-lhe que outra coisa você não tem senão simplesmente gravidez.
Calandrino, logo que escutou esta explicação, pôs-se a gritar, dolorosamente, dizendo:
- Pobre de mim! Tessa! Você é que me fez isto, por não querer estar senão por cima de mim! Bem que eu lhe falava!
Sendo pessoa muito honesta, a mulher ficou toda corada ouvindo o marido falar deste modo; abaixou a cabeça; não disse nada; e deixou o quarto. Continuando com as suas lamentações, Calandrino bradava:
- Deus meu! desgraçado que sou! Que devo fazer agora? Como poderei eu dar à luz este filho? Por onde ele vai poder sair? Estou bem vendo que me acho morto de ódio desta minha esposa! Deus que a faça tão infeliz como quero eu ser feliz; se me sentisse em bom estado de saúde, coisa em que não me sinto, sairia desta cama e iria dar-lhe urna boa sova, até que lhe quebrasse todo o corpo; por fim, isto é muito bem feito para mim, pois jamais a obrigava a sair de cima; contudo, não há dúvida de que, se me safo desta, bem que ela vai morrer de vontade, se não quiser mudar de modo.
Bruno, Buffalmacco e Nello tinham tanta vontade de rir, que estavam a ponto de estourar, ouvindo as palavras de Calandrino; ainda assim, conseguiam dominar-se. Entretanto, o Mestre Simão (que mais era um símio grande do que um Simão) ria-se a bandeiras despregadas, abrindo de tal modo a boca, que fácil seria arrancar-lhe todos os dentes. Não obstante, com o passar dos minutos, Calandrino acabou rogando ao médico, a fim de que ele lhe desse conselhos muitos e auxílio bastante; então, disse o mestre:
- Calandrino, não desejo que você fique amedrontado, pois graças a Deus, nós logo constatamos o fato; mais alguns dias, e com pouco trabalho, eu farei com que você dê à luz; contudo, será preciso despender alguma coisa.
Calandrino deu-se pressa em exclamar:
- Deus meu! Mestre Simão! Sim. Faça-se, pelo amor de Deus! Tenho, aqui, 200 liras, e desejava com elas comprar um pequeno sítio; se for necessário gastá-las todas, leve-as todas, contanto que eu não precise dar à luz! Afinal, nem sei como o daria. Segundo ouço dizer, as mulheres, quando estão para dar à luz, fazem uma barulheira dos diabos, ainda que elas tenham por onde fazer isso; assim sendo, acredito que, se vier a padecer uma dor semelhante, morrerei antes de parir.
O médico sossegou-o:
- Não se apoquente. Vou preparar-lhe uma certa beberagem destilada, ótima e gostosa de se beber; tal bebida vai resolver, em três manhãs, o seu problema; em seguida, você vai sentir-se mais sadio do que um peixe. Entretanto, será preciso que você, passado isto, se porte com maior prudência, para não se embaraçar nestas tolices mais. Agora, a fim de que eu prepare a tal água, é necessário que você me dê três pares de bons capões, dos maiores; para as demais coisas que serão necessárias, além disto, você dará, a um destes seus companheiros, umas 5 liras, trocadas, para que as compre; e ordenará que seja tudo levado ao estabelecimento; eu, em nome de Deus, lhe mandarei, amanhã cedo, aquela beberagem destilada; e você então a beberá, na proporção de um copo grande de cada vez.
Ouvindo isto, Calandrino resignou-se:
- Mestre meu! Deixo tudo por sua conta!
Calandrino entregou as 5 liras a Bruno, e mais os dinheiros para o pagamento de três pares de bons capões; e solicitou-lhe que, por gentileza, se empenhasse em fazer bem tais coisas, ainda que precisasse enfrentar durezas. Foi embora o médico. Ao chegar à sua botica, ordenou que se preparasse uma parte de água açucarada e aromatizada; e enviou o frasco à residência de Calandrino. Bruno comprou os capões e as outras coisas mais necessárias ao prazer do paladar; e, com o médico e os seus outros colegas, comeu-os. Calandrino bebeu, todas as manhãs, aquela água adocicada. Certo dia, o médico foi visitá-lo, junto com os demais companheiros; e, segurando-lhe o pulso, disse-lhe:
- Calandrino, você está curado, com toda a segurança; pode, com absoluta tranqüilidade, já agora ir cuidar de seus negócios; pelo seu mal, que já passou, não é necessário mais ficar em casa.
Muito feliz, Calandrino levantou-se da cama; foi cuidar dos seus negócios; em qualquer lugar em que se encontrasse com alguém, e sempre que esse alguém iniciasse conversa, elogiava extraordinariamente a magnífica cura a que o Mestre Simão procedera em sua pessoa; e esclarecia que o tinha curado em três dias, induzindo-o a desengravidar-se sem sofrer nenhuma dor.
Bruno, Buffalmacco e Nello ficaram contentes por terem sabido, com muita sagacidade, zombar da avareza de Calandrino, apesar de que a Senhora Tessa, notando a tramóia, resmoneasse junto ao marido a esse respeito.