MANUEL BANDEIRA
Grande, grande! Manuel Bandeira. Pernambucano de Recife (1886-1968), não me deu chance de conhecê-lo, pois morreu no ano em que nasci. Sacanagem. Mas o cara viveu muito, para um sujeito sempre às voltas com problemas de saúde. Entrou para a ABL, no tempo em que a instituição era séria. Hoje, basta ser um ex-presidentezinho de merda que você consegue. Manu escreveu muito, e bem. Selecionei um pequeno texto dele e foi difícil tomar esta decisão - toda a produção de Bandeira é impecável. Vejam que pequena jóia, uma sátira do poema "O Corvo", de Poe:
NOTURNO DA RUA DA LAPA
A janela estava aberta. Para o quê, não sei, mas o que entrava era o vento dos lupanares(*), de mistura com o eco que se partia nas curvas cicloidais, e fragmentos do hino da bandeira.
Não posso atinar no que eu fazia: se meditava, se morria de espanto ou se vinha de muito longe.
Nesse momento (oh! por que precisamente nesse momento?...) é que penetrou no quarto o bicho que voava, o articulado implacável, implacável!
Compreendi desde logo não haver possibilidade nenhuma de evasão. Nascer de novo também não adiantava. - A bomba de flit (**)! pensei comigo, é um inseto!
Quando o jacto fumigatório partiu, nada mudou em mim; os sinos da redenção continuaram em silêncio; nenhuma porta se abriu nem fechou. Mas o monstruoso animal FICOU MAIOR. Senti que ele não morreria nunca mais, nem sairia, conquanto não houvesse no aposento nenhum busto de Palas, nem na minh'alma, o que é pior, a recordação persistente da alguma extinta Lenora.
(*) "Lupanar" significa "puteiro", ignorante!
(**) O "flit", antigamente, era um inseticida vendido em estado líquido, em latas. Era necessário colocar o líquido em um aparelho fumigador, que é a tal "bomba de flit". Crianças...