FRUSTRAÇÃO
A vida às vezes nos dá a impressão de que somos moscas presas na teia do Destino, que logo surgirá, na forma asquerosa de uma enorme aranha, para chupar nossas tripas. Vou dar um exemplo. Sempre tive guitarras. Gosto da presença delas. Toco pessimamente, mas pelo menos me dou conta disso. A minha guitarra atual é uma Fender Stratocaster preta, fabricada no méxico. Comprei na época em que o dólar valia menos que um real, ou seja, foi um excelente negócio. Ela foi batizada como "negrinha III", já que era a terceira guitarra preta que eu havia comprado. Meu amplificador é um combo Marshall, de 30 watts. Traduzindo, um combo é um amplificador embutido numa caixa de som. Como desisti, praticamente, de ser um "guitar hero", a negrinha III faz parte da decoração da minha sala. Já o amplificador - tornado um trambolho inútil - serve de contrapeso para segurar a grade que impede Allan Holdsworth de sair da cozinha e cagar no tapete da sala. Como já falei nesse blog, o Allan é meu cachorro. Ele somente fica preso durante a noite: de dia é permitida a sua circulação pela casa toda. E eu penso, toda vez que coloco a grade na porta da cozinha, à noite, e a escoro com o amplificador: "Que merda. Aposto que seria bem mais divertido ser roqueiro do que analista!"