DA SÉRIE "MICRO-CONTOS"

Bruno entrou no elevador vazio e suspirou. Quase meio-dia, horário de almoço. Uma espécie de oásis no meio do deserto da rotina. Nunca almoçava com os colegas de escritório: as conversas sempre tendiam para assuntos do trabalho, que era tedioso, brutal e frenético. Bruno queria esquecer, ao menos por uma hora, esta realidade. Cumpriu seu ritual de almoço, repetido por meses e meses. Primeiro parou na banca de jornal. Olhou as revistas semanais e escolheu, indiferente, uma delas. Foi caminhando até o fim da rua, até chegar ao boteco mais asqueroso das redondezas. Sabia que, ali, jamais correria o risco de encontrar qualquer colega de trabalho. Eles provavelmente desmaiariam ao cruzar a porta de entrada.
No balcão de vidro que estava na sua frente, o prato do dia: panqueca. Numa bandeja imunda de alumínio, os rolos de massa grossa, recheados com sabe Deus o que, boiavam num molho de vermelho estridente, para lá de artificial.
Havia muitos lugares vagos no outro balcão, ao lado. Bruno se sentou e pedi uma vodka e uma cerveja. Abriu a revista e começou a ler, como sempre fazia. Esta rotina, ao menos, lhe era agradável.
De vez em quando, levantava o olhar e meditava sobre as notícias que acabara de ler, procurando na multidão que passava em frente ao bar uma nádega feminina. Numa dessas ocasiões, percebeu que o proprietário do bar se preparava para lhe dizer alguma coisa.
"por favor, não fale comigo! por favor, não fale comigo!", repetia mentalmente Bruno, numa patética tentativa de reverter o inevitável com algum tipo de exorcismo telepático.
- O SENHOR LÊ MUITO, NÃO É?
- ãrrã.
- EU LEIO BASTANTE, TAMBÉM.
- hum.
- LEIO MUITO OS LIVROS DO MEU PROFESSOR, O RAIR LIBEIRO.
- sim.
- O SENHOR JÁ LEU ALGUMA COISA DELE?
- não.
Neste ponto, o homem pegou um copo e encheu pela metade. Colocou na frente de Bruno.
- O QUE O SENHOR ESTÁ VENDO?
- um copo.
- E COMO ESTÁ ESSE COPO?
Meu Deus, pensou Bruno, esse cara não vai desistir. Melhor partir logo para o ataque.
- ele está meio cheio.
- ISSO! É ASSIM O PENSAMENTO POSITIVO DO PROFESSOR RAIR! TEM GENTE QUE DIZ QUE O COPO ESTÁ MEIO VAZIO, MAS ISSO É NEGATIVO! TEM QUE DIZER QUE ESTÁ MEIO CHEIO!
Bruno pensou: cruzes, é um caso perdido. Tudo bem, você é que pediu. Lá vai.
- ok, mas o pensamento positivo só é possível de modo abrangente depois de uma bem-sucedida regressão às vidas passadas.
O homem parou, pensando por um instante.
- COMO É QUE É?
- sim, você tem que descobrir quem você era nas suas vidas passadas.
- E COMO SE FAZ ISSO?
- ora, está cheio de especialistas que fazem isso por aí.
- COMO É O NOME MESMO? DEIXA EU ANOTAR.
- "regressão a vidas passadas". pode ir que é muito bom.
Finalmente o homem se afastou. Bruno notou uma baratinha andando por cima do balcão. Deu um peteleco nela.